Pequenos Monstros

Faustão, em seu saudoso Domingão do Faustão, elogiava uma pessoa talentosa de “monstro sagrado”, mas aqui podemos usar o termo em sua dubiedade que é permitida.

Adolescência e o desabrochar de um talento

Na série da Netflix mais famosa da atualidade, Owen Cooper vive Jamie Miller, acusado de matar uma colega de escola a facadas. Aqui não existe spoiler, pois desde os primeiros minutos da microssérie, tudo acontece como um rolo compressor, que só termina no último momento do último episódio, sendo 4 no total. Com plano sequência de verdade, a história narra trechos de uma tragédia familiar e social.

O menino, de uma família de classe média, nascido e criado numa realidade com internet e redes sociais, é cooptado por discursos e fóruns que exaltam o masculinismo e colocam qualquer menino, jovem e até mesmo adulto, numa posição de fragilidade inexistente.

A famosa história do coitado do privilegiado.

A série é crua e não traz juízo de valor como foco principal, mas sim, um convite à reflexão de como nossa sociedade anda doentia.

Um fato interessante que eu não vejo as pessoas comentarem, é que existe uma dinâmica, dentro do masculinismo, que não abarca só meninos e homens, mas também meninas e mulheres, a partir do momento que, no terceiro e histórico episódio, a psicóloga mostra para o menino prints do Instagram, onde a vítima também praticava bullying com o menino. Então é algo que acomete a todos, mesmo tendo o foco principal, desses masculinistas, sejam meninos e homens. É óbvio que isso não atenua a gravidade do ato do menino, mas contextualiza um problema que é da sociedade em geral.

Nasce uma estrela e o perigo de um talento mal cuidado

Adolescência – Reprodução Netflix

Em todas as cenas que Owen Cooper realiza, nesta série, eu sempre rezava e torcia para que sua saúde mental tivesse sido muito bem trabalhada e protegida. Esta é a primeira obra que Owen trabalha como ator. Com 15 anos (2025), ele interpreta um personagem de 13, mas com uma carga emocional elevadíssima. O terceiro episódio é todo sobre Jamie e a psicóloga. Quase que numa peça de teatro, você assiste uma hora de interpretação quase ininterrupta, que, apesar de ser um plano sequência, acaba saindo e entrando em ambientes distintos.

Público e crítica especializada já consideram Owen o ator revelação de 2025.

O que me fez temer por sua saúde mental e seu futuro, foi saber que ele não é a primeira criança que tem uma acensão meteórica. Exemplo é o que não falta:

Judy Garland era apenas uma menina de 16 anos, quando fez o papel de Dorothy, em “O mágico de Oz“, mas este não tinha sido seu primeiro trabalho na indústria. Começou na dança, depois o teatro, até ser contratada, aos 13, pelos estúdios MGM. Já nova, ela tinha problemas com sua aparência, ainda mais porque era muito “velha” para interpretar uma criança e muito “nova” para interpretar algo mais adulto, inclusive sendo chamada de “pequenina corcunda”. Além disso, sua frenética agenda de trabalhos fez com que ela desenvolvesse vícios em substâncias para deixá-la produtiva, para ela dormir, para ela emagrecer, que perdurou até o seu prematuro fim, aos 47 anos. Além dos abusos registrados, Judy ainda sofreu abuso sexual, pressão para fazer aborto, uma tentativa de suicídio, entre outros crimes que destruíram a vida da grande artista.

Drew Barrymore, hoje com uma carreira consolidada, só conseguiu se reerguer depois de muitos anos. Sucesso em E.T., onde interpretou a Gertie, Drew teve muitos problemas familiares, abusos de substâncias e um afastamento dos holofotes. Somente depois de 15 anos ela voltou a trabalhar em Hollywood. Apesar de não ter realizado nenhum trabalho dramático, quando criança, ela teve muitos problemas.

No Brasil também temos o caso trágico de Fernando Ramos da Silva.

Pixote e a exploração destrutiva

Fernando Ramos da Silva tinha apenas 13 anos quando estrelou o aclamado filme “Pixote – A Lei do Mais Fraco”.

Dirigido por Hector Babenco, o filme retrata a história de Pixote, um menino de rua que é mandado para um reformatório, depois de uma batida policial. Lá ele vê crimes acontecerem entre as crianças, inclusive estupro, até de guardas. Pixote consegue fugir com Chico (Edílson Lino) e Lilica (Jorge Julião), uma transsexual. Já nas ruas, Lilica tem um novo amante, o Dito (Gilberto Moura). Eles chegam a ficar num apartamento de outro amante, Cristal (Tony Tornado), que faz com que esse grupo participe de uma negociação de drogas com uma stripper, no Rio de Janeiro, interpretada pela saudosa Elke Maravilha. A stripper tenta passar a perna nas crianças, acaba matando Chico e sendo morta por Pixote.

Depois do crime e de mais uma fuga, o trio acaba conhecendo Sueli (Marília Pera), que lhes dá abrigo e viram comparsas de furtos de seus clientes. Prostituta, Sueli acaba se interessando por Dito, que deixa Lilica com ciúmes e acaba por deixar o bando ao flagrar Dito e Sueli transando.

Durante os golpes, acontece mais uma tragédia que traz ainda mais drama ao filme.

Pixote – A Lei do Mais Fraco – Reprodução Embrafilme/IMDb

Fernando ainda tentou continuar na carreira, porém ele era semi analfabeto e não teve nenhuma ajuda da indústria. Tirado das favelas do Grande ABC (que inclusive é mostrado antes do filme começar), ele acabou voltando para lá, quando sua carreira de ator não tinha ido para frente. Se envolveu com o tráfico e acabou sendo morto aos 19 anos. Fernando não teve qualquer respaldo familiar e da sociedade, principalmente da indústria que lucrou muito com sua atuação.

Quando não são resguardados o “ser criança” desses atores que se destacam, o fim acaba sendo trágico e, a cada minuto de cada episódio de “Adolescência” eu só pensava, torcia para que a saúde mental deste menino Owen seja cuidada. Este pode ser o único trabalho dele, ou pode ser o primeiro de muitos. O que vai definir seu futuro, será seu entorno, as oportunidades que surgirem.

Dadas as devidas realidades, é difícil não fazer este paralelo entre Fernando e Owen. Torço muito para que Owen não tenha o mesmo fim.

Pequenos Monstros

Beleza Fatal e o ode a Vilania

Por que brasileiro gosta tanto de vilão?

Recentemente, a TV Brasil, em seu perfil no Tiktok, exibiu um trecho de uma entrevista de Beatriz Segall, para o Ziraldo sobre sua personagem, Odete Roitmann, e a relação do brasileiro com vilões:

@tvbrasil

AcervoEBC 🗂️ | “Achar que ela ser ass4ssinada (…) é o grande castigo, vai ser a catarse nacional, nós estamos admitindo a pena de m0rte” No bate-papo com Ziraldo no programa “O Papo”, de 1988, a atriz Beatriz Segall, que interpretava à época Odete Roitman na novela “Vale Tudo”, analisa a repercussão do ass4ssinato da personagem.

♬ som original – TV Brasil – TV Brasil

A Max estreou sua primeira novela brasileira no dia 27 de janeiro de 2025 e seu último capítulo foi exibido dia 21 de março de 2025. Apesar de se perder em termos como “série”, “novela”, “episódios” e “capítulos”, a obra de Raphael Montes foi vendida, desde o começo, como novela (diferente da Netflix que até hoje não consegue identificar “Pedaço de Mim” (chamando de melodrama – um termo ainda pior, que desrespeita a tradição e cultura brasileira).

A trama conta a história principal de Sofia (Camila Queiroz) e Lola (Camila Pitanga).

Sofia busca vingança após perder a mãe, incriminada por Lola e morta em cadeia a mando da mesma. Lola era prima de Cleo (Vanessa Giácomo), mãe de Sofia. As histórias dessas personagens principais se entrelaçam com a vida da família Argento e a família Paixão, que também são afetadas pela morte de Rebeca Paixão, numa cirurgia feita por Rog (Marcelo Serrado) e Benjamim (Caio Blat).

Vários crimes rondam as vidas de Lola, Benjamin e Rog, que ocorrem ao longo da trama.

Brasil: amor e ódio por vilões

Em Beleza Fatal temos Lola, numa interpretação magistral de Camila Pitanga, o que fez com que muita gente relembrasse de vilões marcantes da história da telenovela brasileira. Raphael Montes até apelou para um trauma na vida de Lola, para que o público pudesse ter empatia, numa espécie de justificativa de seus atos horrendos. Pode até contextualizar, mas não justifica.

Beleza Fatal conseguiu trazer de volta para o público o prazer em amar e odiar vilões. Desde a última grande vilã reconhecida (Carminha, de Adriana Esteves, em Avenida Brasil), o público carecia de novos vilões. E vilões da ficção são muito mais palatáveis do que os vilões da realidade.

Na pandemia, vimos que vilões da vida real não são tão legais de se venerar (até isso tinham tirado da gente).

Alguns fatores contam para que vilões ganhem mais interesse do público do que os mocinhos de tramas: Geralmente mocinhos são muito bons, que chegam a ser tontos. Já vilões são astutos, inteligentes e sagazes, com tiradas que divertem o público, ganhando o carisma que mocinhos não conseguem.

E é o carisma que fez com que Lola fosse venerada nas redes sociais. Assim como aconteceu também com outros vilões ícones da história:

Alguns casos ainda chamam mais atenção, quando vilões conseguem sua redenção, exatamente por sua aclamação. O mais recente vilão que ganhou o público, tendo até o marco histórico do primeiro beijo entre dois homens na TV Globo (sem o boicote da própria emissora), foi Félix, de Amor à Vida.

Mateus Solano conseguiu dar tanto carisma para o personagem que chegou a jogar a sobrinha, recém nascida, no lixo, deixou de ser vilão, sendo amado, até mesmo pelo pai que o rejeitava.

Entre o amor e ódio

Apesar do carisma de Lola, a personagem faz muita coisa ruim durante toda a trama: arma para seus inimigos, mata muitas pessoas que atrapalham seu caminho e chega a torturar. Além de ser amada, a personagem acabou sendo também odiada. E existe um temor do público em odiar amar um personagem.

Historicamente, o público não consegue desassociar o personagem do ator. Existem muitos relatos de atores que chegaram a ser ameaçados pelo público.

Um dos casos mais emblemáticos foi de Regiane Alves, que interpretou a malvada Doris, de Mulheres Apaixonadas, que foi hostilizada por telespectadores.

Reprodução Gshow/TV Globo

Amar odiar é aquele meio termo que eu considero mais saudável. Odete Roitmann é um desses casos que telespectadores amaram odiar. Interpretada de forma magnífica por Beatriz Segall, a personagem já entra na trama de Vale Tudo ferindo vários direitos humanos. (tem review da novela inteira aqui, leia que vale muito a pena)

Novela de volta as suas origens

Novelas brasileiras se tornaram uma poderosa ferramenta cultural, influenciando e moldando como o brasileiro se vê e se reconhece nas telas. Mas, nos últimos anos, a TV Globo caiu na tentação da globalização, mesmo tendo feito muitas novelas clássicas que viraram produto de exportação de grande sucesso.

Mais recentemente, a Globo resolveu apostar em formas consolidadas pelo mercado estadunidense, como as séries. O resultado foi o extremo oposto do que eles gostariam, tanto que, agora, eles apelam para remakes de sucessos antigos, para tentar resgatar a identidade novelística brasileira, como se o novo, ou o modelo clássico, ainda que com novas histórias não fosse possível… Até chegar a Max.

Sucesso nos dias atuais

As métricas utilizadas antes não refletem a realidade atual. Hoje, com dispositivos móveis e acesso fácil à internet, poucos são os que realmente param em frente à TV para assistir uma trama. Nessa realidade imposta, Beleza Fatal vem para mudar o cenário, mostrando que é possível ser popular sem ter os mesmos números de antigamente. E Raphael Montes nem cria a roda aqui, pelo contrário, ele aposta forte no mais clichê dos clichês das telenovelas brasileiras, com apenas alguns diferenciais, mesclando o novo com o velho.

Max ainda demonstra que, diferente da TV aberta, a liberdade de contar histórias sem um determinado número de capítulos pré-definidos (geralmente de obras extensas) faz toda a diferença. Enquanto a média de capítulos de uma novela na TV Globo chega por volta dos 100 capítulos, apenas com 40, Beleza Fatal entregou muito, com coesão, quase que sem barrigada, numa trama muito bem escrita.

Existe o risco de Raphael Montes dar continuidade à trama, um erro já cometido por Walcyr Carrasco com sua péssima Verdades Secretas 2.

Review com spoilers!

Caso você ainda não tenha assistido à novela da Max, pode ignorar o que vem a seguir:

A novela é ótima? Sim. Perfeita? Nem tanto.

A trilha sonora é bem fraca, não pelas músicas desconhecidas (em sua maioria), mas por não conversar direito, em vários momentos da novela.

O fato da Sofia ter um romance com seu primo, Gabriel (Enzo Romaní), já é estranho, mas fica ainda pior quando ela se relaciona com o seu irmão de criação, Alec (Breno Ferreira), quando o filho de Elvira (Giovanna Antonelli) e Lino (Augusto Madeira) poderia ser apenas um irmão na friendzone.

A primeira fase da novela é curta, mas muito bem feita. Quando acontece a segunda fase (e aquela peruca horrorosa da Sofia), existe uma semelhança entre as atrizes Camila Queiroz e Vanessa Giácomo.

A primeira vez que se mostra que Átila (Herson Capri) está com câncer, parece que logo ele vai de arrasta, mas aí somos surpreendidos pela terceira fase da novela e ele estava firme e forte, tendo um tórrido relacionamento com Marcelo (Drayson Menezzes), uma boa sacada do autor, ao colocar o personagem gay transfóbico, algo, infelizmente, comum na nossa comunidade. Aliás, este é o melhor trabalho de Herson Capri.

O elenco é muito bom, entrosado e que entrega.

Poderiam ocorrer mais crimes gráficos envolvendo a questão estética.

O medo de ser mais um Todas as Flores, fez com que eu temesse até o último capítulo de Beleza Fatal.

A semana dos capítulos 26-30 parecem monótonos e sem grandes acontecimentos. O que não deixa de ser curioso, pois a trama de Beleza Fatal tem enredos que se aceleram, mas que poderiam ter sido exploradas, tanto dentro da linha do tempo, como em flashbacks, tal qual fazem outras obras como animes e séries. A barrigada é, acima de tudo, uma opção de quem produz.

Eu gostei da mocinha vingativa… Não gostei dela se perdendo no meio do caminho, achei um recurso fácil, preguiçoso, quase que mandando o recado do Seu Madruga: “A Vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena”.

Um discurso que repete, meio que querendo justificar as atrocidades de Lola, de Sofia… Que nunca tiveram nada de mão beijada. Talvez seja uma tentativa de narrativa com moral, numa espécie de nivelamento que não pode ser ultrapassado. Todo o núcleo popular dessa novela reverbera esse discurso. É um saco.

Vivianne (Naruna Costa) tem o pior plot da novela, mas que é compensado pelo seu fim explosivo.

O assassinato do delegado corrupto passou tão batido, ainda que de forma cômica, que eu achei até curioso. (não consegui encontrar o nome do ator)

O arco que mais me surpreendeu, foi o de Gisela (Julia Stockler), pois, desde o início eu achei que ela iria se matar, mas ela sim, teve uma das mais maravilhosas vinganças da novela.

A novela tem seus buracos, mas alguns, especialmente no último capítulo, foram bem feios.

Quem ligou para Lola fugir do hotel que estava foragida?

Afinal, com quem a Ramona (Patrícia Gasppar) estava conversando? Se existia um segredo sobre a fortuna escondida na Itália, por Átila, como Marcelo, Ramona e Ana (Monica Torres), até mesmo a volta da Nara (Georgette Fadel), sem muita explicação também, estavam todos indo para lá?

A coringada final de Lola foi um pouco exagerada. Ao incendiar a Lolaland, eu entendi que ela entendeu que perderia seu império de qualquer forma, então que não fosse de ninguém, mas ficou algo tão qualquer coisa, tão Soraya Montenegro (Itatí Cantoral) querendo matar a Maria do Bairro (Thalía)…

Ficou óbvio que Sofia foi quem matou o Benjamim, para culpar a Lola. No fim, ela foi presa pelo único crime que não cometeu, o que não deixa de ser uma boa canetada do Raphael Montes.

Apesar da novela ter a autoria de Raphael Montes, é imperativo que os colaboradores devem ser citados também, pois, muitas vezes, são eles quem carregam as tramas e podem ser futuros autores de novelas também:

Victor Atherino
Manuela Cantuária
Galba Gogóia
Raphael Montes
Raphael Montes
Rafael Souza
Mariana Torres
Luiza Yabrudi

Em seu casamento, Andreia ((Kiara Felippe) menciona uma música que ela disse que sempre ouvia, mas nunca tinha tocado na novela.

Raphael Montes fala (em muitas entrevistas) muito da humanização dos vilões e do lado obscuro dos mocinhos. Eu entendo, porém discordo. Pra mim, precisa existir um limiar que não pode ser ultrapassado, pois a novela tem essa liberdade dicotômica e tá tudo bem. Ainda mais que foi uma trama que se sustentou na briga entre mulheres.

Novela realmente brasileira?

Apesar de todos os louros o ovações, é importante salientar que a novela Beleza Fatal (criada, dirigida e realizada por brasileiros) é de propriedade da Max, de uma empresa estadunidense. A falta de regulamentação afeta demais as próprias pessoas envolvidas na produção, reflexo disso foi a venda da novela para a Band, excluindo, segundo o Caio Blat, os atores nessa venda. Produções brasileiras deveriam pertencer aos brasileiros, ao país.

Beleza Fatal e o ode a Vilania

The Traitors UK e a maestria em contar uma história.

Como a BBC elevou uma franquia e como outras versões erram em não entender a “realidade”.

Reprodução BBC

O primeiro reality show da história é de 1973, mas o hit mesmo só aconteceu nos anos 2000, quando vários países abraçaram o novo conceito de fazer TV. Toda emissora do mundo teve um programa de competição, mas o confinamento, ou até ir para outro lugar, foi o diferencial que separou o que eram os programas comuns dessa nova forma de entretenimento.

Realities de confinamento, de sobrevivência, de música e até culinária. Conforme os anos foram se passando, o conceito reality foi se expandindo e mudando. Hoje temos realities de transformação, de talento (como a arte drag), de negócios e empreendimento, de relacionamentos amorosos, realities que mostram o “dia a dia” de celebridades, até mesmo reality baseado numa série de sucesso… Até que, em 2021, chega uma nova forma de fazer reality show. Apesar de já existirem realities sobre talentos, até então, nenhum que fosse, de fato, temático, de estratégia.

The Traitors

Nascido no país que criou as maiores franquias de reality show (Big Brother – 1999), em 2021 vai ao ar a primeira edição de The Traitors, ou De Verraders, na Holanda. Sucesso de primeira, logo começou a ser vendido para outros países. No Reino Unido, veio pelas mãos da BBC One, nos EUA, pela Peacook, na Austrália pelo Channel 10.

Trailer da primeira temporada de De Verraders (The Traitors)

Mas o que é The Traitors?

Como o nome já sugere, “Os traidores” é sobre blefe, mentira, sobre trair e ganhar o dinheiro no final do jogo. Para os Traidores a tarefa é fácil: “matar” um Fiel por noite, mas é necessário esconder sua real identidade durante o jogo, pra conseguir ganhar.

Já os Fiéis tem a tarefa mais difícil: toda noite, antes do ataque dos Traidores, eles precisam descobrir quem são e expulsá-los do jogo, mas a desconfiança pode ser uma grande inimiga, pois pode acabar vitimando Fiéis. No banquete do dia seguinte, os Fiéis remanescentes são surpreendidos pela próxima vítima, mesmo se descobrirem um dos Traidores.

Além disso, todos os participantes precisam cumprir as tarefas criativas para juntar o maior montante de dinheiro possível (geralmente ilustrado por barras de metal precioso, seja prata ou ouro).

Reprodução BBC/Studio Lambert/Mark Mainz RadioTimes

Diferencial

O que torna o The Traitors mais saboroso é a edição e o roteiro, na forma de contar a história.

(Não cheguei a assistir a primeira versão original, mas recebi feedback que não é muito boa… Acreditei e não fui atrás.)

Conheci a partir da versão UK e me apaixonei já no primeiro episódio. Com a apresentação da maravilhosa Claudia Winkleman, o reality se passa num castelo nas Terras Altas (Escócia), num lindo cenário medieval.

Os participantes chegam, conhecem o local e se conhecem. Todos começam como Fiéis. Tudo lindo, tudo maravilhoso até a primeira reunião para serem escolhidos quem serão os Traidores e quem serão os Fiéis. Todos com os olhos vendados, sentados na mesa onde acontecem os banimentos, somente os Traidores são tocados nos ombros, pela apresentadora.
Aí meu amor, é puro entretenimento.
Só que o programa não é tão simples assim e isso deixa tudo melhor.

Plot twist para todos os lados

Para os telespectadores, saber quem são os traidores e quem são os fiéis não faz muita diferença, até porque, aqui, o telespectador não interfere na dinâmica. Isso por si só já é um plus. Mas, nem sempre a história segue o padrão. Às vezes traidores são revelados nas reuniões e expulsos do jogo; às vezes, os traidores precisam escolher se vão recrutar um dos fiéis, ou se vão continuar o assassinato.
Dependendo da dinâmica, rola até uma vingança.

A versão australiana

Apesar da versão UK ser a mais bem sucedida, em 2023 a Austrália exibiu a sua versão. A primeira temporada é simplesmente maravilhosa… Uma pena que as demais temporadas não seguem o mesmo padrão UK, ou até mesmo a própria versão australiana.
Se você acha que conheceu tudo com a versão UK, você vai se surpreender com todos os personagens e participantes dessa temporada histórica.

Diferente da versão UK, a versão australiana se passa num hotel e os participantes acabam morando no local, durante a temporada.
Mas aqui o saber contar história também faz toda a diferença. Desde o primeiro episódio você conhece participantes fascinantes, escolhas interessantes e muita traição. A apresentação de Rodger Corser também é um ponto muito importante nessa versão.

Mas o que é contar a história?

Hoje, olhando para trás, eu entendo que de reality (ou realidade) não existe nada. São programas que criam situações que não existem na realidade, ou são forçadas num nível que não compete com o cotidiano. Dito isso, o que diferencia um simples programa de um reality show, e um reality show de um reality temático é a edição e como ela é conduzida pelo roteiro.

E, apesar de parecer uma franquia que aparenta simplicidade, The Traitors exige muito de quem o faz. O programa exige um roteiro coeso. Talvez vencedores sejam elencados antes mesmo das gravações começarem e isso não é um problema quando se sabe contar uma história! O entretenimento tá ali, o juízo de valores não precisa ser feito, pois é um reality de estratégia (apesar de alguns participantes passarem um pouco do ponto).

A versão UK se sobressai pois eles conseguem se renovar em suas dinâmicas dentro do conceito básico, a cada nova temporada, e isso é muito importante, pois foge total da monotonia, do cômodo.

Aqui no Brasil, não consigo lembrar de uma edição do BBB que tenha contado, de fato, uma história… E não é uma tarefa fácil, ainda mais quando o programa não possui uma temática. Nesses 24 anos de BBB, o programa estagnou. Na edição 20, trazer “famosos” para a competição foi um diferencial. Na edição 25 até houve uma tentativa de criar uma temática ao trazer duplas para a competição, que chegou a ser chamada de “BBB Laços”, mas o programa ainda não se sustenta, pois só trouxe isso de novidade mesmo. No geral, o BBB não possui uma narrativa boa, o programa não é roteirizado para ser entretenimento, não acontecem surpresas que mudam toda a dinâmica. O programa virou só uma grande galinha dos ovos de ouro.

Em sua volta na tela da TV Globo, No Limite até tentou contar uma história, mas o público não gostou, pela memória afetiva da versão anterior, que focava mais na competição do que na história, no convívio.

O desastre estadunidense

Nos EUA, o excesso de narrativa destrói The Traitors. Contar uma história dentro de um reality show não é para qualquer um. Há quem goste da patifaria do Alan Cumming, do exagero de atuações. O curioso é que a versão estadunidense é realizada no mesmo castelo da versão UK, mas acaba parecendo tudo cenário, plástico, sem vida.

A primeira temporada australiana está no primeiro lugar do meu pódio. Depois vem as temporadas da BBC One. E vai ser difícil bater a maravilha que foi a primeira temporada australiana.

Ainda existem algumas versões em outros países como Canadá, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Hungria, Portugal, Rússia, Espanha… Mas ainda não há informações de uma versão brasileira.

The Traitors estadunidense está disponível na Claro TV+

The Traitors versão Australiana pode ser achada em sites de vídeos e The Traitors UK só na locadora popular.

The Traitors UK e a maestria em contar uma história.

Vale Tudo 1988 – Mais um review enorme para uma grande novela

Um dos primeiros aspectos mais importantes, e estranhos, é que a Globoplay não exibiu, em nenhum momento a mensagem, antes de cada capítulo, que: “Essa obra pode conter representações negativas e estereótipos da época em que foi realizada”. Tudo bem que nesses quase 37 anos desde sua estreia, muita coisa não mudou no Brasil, mas não deixa de ser curiosa essa linha editorial.

Outro problema é que a novela sofreu aquela esticada da imagem, passando do original 4:3 para 16:9. Eu mexi na configuração da TV para manter o aspecto 4:3.

“Não me convidaram
Pra esta festa pobre”

A história principal é sobre a dualidade entre o que poderia ser tido como certo ou errado, bem ou mal, honestidade ou falcatruas, quase que num binarismo, mas bem elaborado.

Regina Duarte começa canastrona, com uma atuação exagerada. Sua personagem Raquel Gomes Accioli, passa da mãe sofredora para a mulher histérica, com muita facilidade. Ao decorrer da trama, ou você se acostuma com a atuação da atriz, ou ela melhora de fato (isso, eu acho, é uma questão de ponto de vista).

Raquel trabalhava como guia turístico nas Cataratas de Foz do Iguaçu. Ela era casada com Rubens (Daniel Filho), um artista puro – sem dinheiro, vivendo de sua arte. Eles acabam se separando por conta da vida boêmia de Rubens.

Depois da separação, ela vai morar com seu pai, Salvador (Sebastião Vasconcelos) e sua filha, a vilanesca Maria de Fátima (que mais parece uma continuação da personagem Marisa, interpretada também pela Glória Pires em Dancin’ Days, só que numa versão bem mais pobre e alpinista social). Fátima entende que vive no capitalismo, mas não sabe lidar. Ela não tem norte, mas quer chegar ao topo, sem esforço, só contatos. Já Raquel, se esforça muito e acredita que vai crescer na vida (seja lá o que isso signifique).

Capítulo 10 marcado por um diálogo de Raquel e Fátima. Regina Duarte continua caricata, mas até que entregou texto.

Fátima começa sua saga pela fortuna, quando se encontra com César (Carlos Alberto Riccelli) um modelo decadente, viciado e picareta que seduz ela para uma vida de glamour de modelo.

Fátima ainda conta com a sorte do avô deixar a casa no nome dela. O avô morre, Fátima vende a casa e vai para o Rio de Janeiro, indo atrás de Rubens, que tem um apartamento no Rio. Quando Raquel chega na casa vendida e quase vazia, é despejada sem querer acreditar no que aconteceu ali.

Raquel acaba indo atrás de sua filha, achando que a garota foi corrompida por César e induzida a ir para o Rio. A trama, então, se desloca para o Rio de Janeiro.

Enquanto Fátima gasta o dinheiro da venda da casa com luxo e ostentação, Raquel chega ao Rio com uma mala e pouco dinheiro. Logo Raquel é assaltada e, no meio desse caos, ela conhece Ivan, personagem de Antônio Fagundes (numa versão mais pobre e menos descolada de Cacá, de Dancin’ Days. A reprise fica ainda mais evidente porque rola a dobradinha Antônio Fagundes e Cláudio Correia e Castro, que também faz o papel de seu pai, agora chamado de Bartolomeu).

O trambiqueiro César, mora no Rio de Janeiro num apartamento chique, com seu colega Franklin (Paulo César Grande). Só que este apartamento é de alguém que nem conhecia eles.

Depois de descobrir a falcatrua dos dois, Doutor Bernardo (Marcos Wainberg), o decorador, despeja eles da casa, mas acaba convidando Franklin a ir embora com ele. Apesar duma participação bem minúscula, Dr Bernardo foi o primeiro gay da novela.

Núcleo popular da novela

Por se tratar de uma novela de antagonismos, as diferenças sociais também dividem os personagens que são ricos, dos que são populares, tendo uma vida mais humilde.

Na vila que Raquel acaba indo morar, vive Poliana, apelido de Audálio (Pedro Paulo Rangel), e Aldeíde (Lília Cabral), que acolhem Raquel. São vizinhos de Consuelo (Rosane Gofman), tia de André (Marcello Novaes) e Daniela (Paula Lavigne). Consuelo vive também com o irmão, Jarbas (Stephan Nercessian).

Lucimar (avó da atriz que é neta da atriz Maria Gladys) é uma personagem importante para a trama, mas existem alguns personagem com menos relevância, como Vasco (Paulo Rezende) que participa de cenas, mas não exerce função primordial na trama.

E temos Gildo (Fernando Almeida), um dos meninos que a Raquel explorou. Preto, ele sofre racismo recreativo, é taxado por ser da favela, e acaba cometendo “pequenos crimes” por sobrevivência.

Núcleo classe média

Ainda temos um terceiro núcleo que acaba transitando entre o núcleo dos ricos e dos populares:

Solange Duprat (Lídia Brondi) produtora de moda que começa como namorada de Afonso, Sardinha (Otávio Müller) amigo e companheiro de apartamento da Solange, Fernanda (Flávia Monteiro) filha de Eunice (Íris Bruzzi), esposa de Bartolomeu; e Leila (Cássia Kis) ex esposa de Ivan e mãe de Bruno (Danton Mello), que acabam indo morar na casa dos ex-sogros.

Renato (Adriano Reys) dono da revista Tomorrow, uma revista focada num público que quer se alienar, quase como uma revista de moda, da atualidade. Ele é primo de Marco Aurélio.

Luciano (Jairo Lourenço) começa na trama como chefe de Ivan no telex, mas acaba virando assistente do mesmo, quando Ivan vira diretor da TCA.

Deise (Nara de Abreu), empregada da casa de Marco Aurélio e Freitas (João Camargo), o capacho de Marco Aurélio.

Outros personagens vão aparecendo ao longo da trama: Íris, que acaba substituindo Aldeíde na TCA, tem um dos piores enredos focados em sua virgindade; Ruth (Zilka Salaberry) que tem uma importante função na trama; Mário Sérgio (Marcos Palmeira) que começa como um fotógrafo freelancer e se torna editor da Tomorrow.

“Não me ofereceram
Nem um cigarro”

Nunca tinha visto uma novela, até então, com muitos fumantes. Muitos mesmo. São raras as cenas que as pessoas não estão fumando. Até achei que teria propaganda de cigarro, mas não teve.

Mas isso não tira o fato de que a novela foi um sucesso comercial: cerveja, vinho, refrigerante, marca de roupas, fogão, loja de alfaiataria, molho de tomate, temperos, sopas, passa roupas, Atari, gradiente, banco, marca de doces e até empreiteira de imóveis…

“Não me elegeram
Chefe de nada”

Raquel tenta prosperar, mas no início ela só consegue frustração, até que Bartolomeu diz para ela pensar naquilo que ela sabe fazer e focar nisso. Dito e feito: como uma boa cozinheira, ela começa a vender sanduíches na praia, e depois, com o aumento das vendas, faz algo que hoje é bem questionável: usa do trabalho infantil para vender seus sanduíches.

Raquel sonha pequeno, mas cresce até de forma rápida. Progredindo no que faz, acaba pesando em sua consciência sobre se sentir “capitalista”, como também pesou a consciência sobre explorar as crianças. Raquel busca uma pureza que é incompatível com a realidade capitalista. Fala tanto em “sangue de Jesus tem poder” que até parece que esse sangue talhou, pois só dá problema e pouca solução. Não demora muito, ela é notada pelo casal Cecília (Lala Deheinzelin) e Laís (Cristina Prochaska). Cecília é irmã de Marco Aurélio, personagem de Reginaldo Faria. Aos poucos vamos conhecendo o núcleo rico da novela: a Família Roitman.

Cecília e Laís – Reprodução IMDb / TV Globo

Mas, antes disso, é preciso falar sobre Ivan Meirelles. Com um pouco mais de escrúpulos que Fátima, porém ainda ambicioso, o galã perde seu emprego de alto escalão, mas vai aos poucos galgando seu espaço na TCA. Começando como operador de telex, ele vai se infiltrando de maneira sorrateira e perspicaz, inclusive jogando seu charme para Aldeíde e Consuelo, secretárias de Marco Aurélio, para ter acesso às informações sigilosas da empresa. Nesse meio tempo ele acaba indo morar com Rubens, ex-marido de Raquel.
Ele se apaixona por Raquel, apesar disso, o casal que tem menos química que o cabelo de Thiago. Ainda assim, o casal chega até ter flashback, logo no começo da novela, no capítulo 15.

Loiro “supernatural” de Thiago – Reprodução Globoplay

Família Roitman

Além da Cecília, irmã de Marco Aurélio, temos Heleninha Roitman (Renata Sorrah), ex-mulher de Marco Aurélio e mãe de Thiago (Fábio Villa Verde).

Heleninha é atormentada pelo passado e por seu alcoolismo. Ela chega a passar por uma clínica de reabilitação, mas não consegue sair do fundo do poço. Ultra protegida por sua família, especialmente por Celina (Nathalia Timberg), que acaba exercendo o papel de mãe para Heleninha e seu irmão, Afonso (Cássio Gabus Mendes), enquanto Odete Roitman (Beatriz Segall) mora em Paris. Essa ultra proteção custa caro, pois Heleninha acaba não amadurecendo para entender seus problemas e poder enfrentá-los. Marco Aurélio, seu ex marido, é vice-presidente da TCA e vive dando golpes na empresa, abusando de seu poder e status. Thiago, filho de Heleninha e Marco Aurélio, é perseguido pelo pai por ser mais sensível e ter um gosto mais requintado. Tanto com Thiago, como com Cecília, Marco Aurélio tece comentários bem homofóbicos.

Mas se engana quem acha que a maior vilã da novela aparece de imediato. No capítulo 28, aparecem apenas partes do rosto dela, e só nessa cena ela fere uns 50 direitos humanos.

Somente, então, no capítulo 30 ela entra de vez na trama.

Pobres ricos que sofrem…

Apesar de ser uma novela, existiram vários capítulos em que pareciam episódios com temáticas.
O capítulo 17 é inteiro sobre conflito de classes.
A culpa capitalista: Um dos piores discursos acaba sendo de Heleninha para seu filho, Thiago, sobre aprender a viver sendo rico, conviver com esse fardo e simplesmente não fazer nada. Isso porque ela ainda lista todas as mazelas do mundo (incluindo a fome e o nordeste – de forma pejorativa mesmo, como se a região fosse um problema, ignorando fatos históricos).
“Podre de rico” de repente não é uma frase qualquer. Aqui, em Vale Tudo, ela faz total sentido.

Preconceito recreativo

Aliás, apesar do texto de Gilberto Braga parecer mais “moderno”, ele acaba caindo em vários problemas como xingamentos e preconceitos. Palavras como bicha, viado, sapatona são ditas com certa frequência. Marco Aurélio chega a dizer que o filho Thiago é “doente” e tenta “consertar” isso no filho dele.

Quando Thiago começa a ter uma vida mais social, fazendo natação para tratar de sua asma, ele conhece André e começa ter uma amizade de levar o garoto para a casa. Marco Aurélio é tão neurótico que acha que eles estão tendo um caso. Marco Aurélio acusa André de ter um romance com Thiago, dizendo para o filho que preferia ele morto (discurso conhecido, né?). Jarbas chega a questionar André e diz que talvez aceitaria se ele fosse gay. Thiago ainda chega a dizer para Marco Aurélio que ele é quem pode ter “o problema” (ser gay).

“É bicha falando como se fosse gente”, diz Consuelo num surto de moralismo.

Além dos casos de homofobia, a novela também carrega no esteriótipo da mulher preta e Zeni Pereira acaba fazendo uma personagem de empregada doméstica, Maria José, ou Mazé, que mora na casa dos patrões, aparentemente pouco letrada e num tom que chega a ser desconfortável em alguns momentos. Prefiro acreditar que o autor quis fazer uma referência à personagem de Hattie McDaniel, “Mamãe” de “…E o vento levou”.

Maria José – Reprodução Globoplay

Diversidade na área

Há cenas em que se fala em “tendência” quando se trata de gays… Era época da pandemia de HIV e Heleninha chega a soltar a frase: “De câncer, fumante também morre”. Lembrando que de início, a AIDS/HIV era tratada como um câncer.

Apesar das constantes homofobias na novela (e fora dela), a novela é recheada de personagens LGBTQs: Dr Bernardo, de certa forma Franklin, Cecília e Laís e sua “amizade“, além do icônico mordomo Eugênio.

Eugênio trabalha na casa de Celina e é totalmente imerso na dinâmica de hierarquia social, sempre querendo separar empregados e patrões. Existe também uma personagem que é mencionada, mas não aparece… E eu não sei se foi má vontade ou má fé, mas chamavam a personagem de “O Shirley“.

Ainda há uma questão: Thiago e Fernanda eram demissexuais? Pois eles deram muito mais valor para coisas além do sexo, acontecendo muito depois. Aliás, Ivan acabou sendo mentor de Thiago, mas o texto tem algumas coisas complicadas, principalmente com relação à diversidade, o que chama atenção, pois o escritor é gay e era casado. Por vezes o Ivan repetiu ser um “problema” a diversidade sexual.

Laís: a resistência!

Apesar de tantos personagens da diversidade, a novela acabou sofrendo críticas por conta do casal Cecília e Laís. Não sei se isso influenciou na tragédia que acaba acontecendo no meio da trama, mas o personagem de Cristina Prochaska resiste até o último capítulo da novela, falando sobre preconceito (ainda que de forma velada) e até conseguindo um par romântico nos últimos capítulos. Aliás, a cena de Eugênio e Lais é bem bonita, apesar de limitada pelo preconceito. Leila foi a única a falar em “companheira“. Numa novela de 1988, recém saídos de uma ditadura, esse é um marco e tanto.

As malas, a morte e o desvio

Um dos grandes momentos da trama se dá quando, quase todos os personagens da trama, vão para Búzios:

Raquel, convidada por Cecília e Lais para sua pousada, numa oferta de emprego; Rubens vai tocar no bar da pousada e acaba encontrando Renato, para quem tinha mentido ser rico, mesmo sendo desmascarado pelo amigo, Rubens recebe ajuda de Renato para fazer a tão sonhada viagem para Nova York, inclusive dando uma mala chique para Rubinho viajar. Dias antes, Renato deu uma mala parecida com a que deu para Rubens, para seu primo, Marco Aurélio.

Até existe uma sequência estranhíssima que mistura imagens do personagem Rubens com o cantor e compositor Antônio Carlos Jobim…

Tom Jobim e Rubens – Reprodução Globoplay

Boa parte da família Roitman também foi para Búzios, inclusive Marco Aurélio que paga uma mulher para tirar a virgindade de Thiago, o que acaba não acontecendo, pois o rapaz broxa na hora.

Thiago acaba fugindo e Heleninha tenta beber. Marco Aurélio desiste de dirigir o próprio avião e deixa a cargo da namorada, Cláudia (Tereza Mascarenhas), em entregar a mala com 800 mil dólares para um contato no estrangeiro.

Nessa viagem iriam Rubens e Cláudia. Ao colocar o endereço na tag da mala, Rubens começa a passar mal (A cena toda ao som de “New York, New York”, de Frank Sinatra). Cláudia chega a reanimá-lo, ele é hospitalizado, mas acaba morrendo, segurando o seu passaporte.

Com todo esse caos, César acaba indo viajar para o Rio de Janeiro com todas as malas, de “carona”, inclusive junto das malas gêmeas, sendo uma recheada de dinheiro e outra com coisas de um simples músico. Uma ele rouba e deixa outra.

A novela explora bem esse primeiro suspense, afinal, quem ficou com a mala de dinheiro? A mala que tinha a tag que Rubens preencheu, estava com o endereço do apartamento que ele dividia com Ivan. Depois de capítulos, descobrimos que a mala com dinheiro ficou com a tag de Rubens.

Freitas, a mando de Marco Aurélio, ainda chegou revistar essa mala, mas o dinheiro estava escondido de forma que o Freitas não percebeu.

Nesse meio tempo Ivan se enrosca com seu salário e acaba gastando antes de receber; Bartolomeu, seu pai, empresta dinheiro ao amigo; Poliana, já companheiro de Raquel num restaurante, usa dinheiro de agiota. E tudo poderia ser resolvido se eles abrissem a mala, que Raquel insistia em dar para Fátima, que era a herdeira legítima de Rubens.

Ivan acaba falando que Raquel tem “Honestidade patológica”.

Vilãs e vilão

O que define um vilão? Qual a linha da vilanice? Pode um vilão se regenerar? E quando não? Existe uma real vilã de Vale Tudo? Humanizar vilões, é interessante?

Marco Aurélio: Um mulherengo safado, vice-presidente da TCA, vive desviando o dinheiro, tem falas homofóbicas, xenofóbicas e eugenistas. Humilha qualquer um que ele ache que seja inferior a ele. Deu o maior golpe na TCA e saiu ileso. Se enfiou na política de uma cidade minúscula por corrupção. Chegou a ser seduzido por Fátima, mas acaba usando ela e tenta incriminá-la da morte de Odete.

Maria de Fátima: Ela é capaz de tudo para se dar bem. Ela vendeu a casa de herança do avô; despejou a mãe da casa; não foi ao enterro do pai, pois poderia desmascarar sua verdadeira origem; se aproximou de Solange por interesse, destruiu o relacionamento que a produtora tinha com Afonso, armando até flagrantes com César, seu comparsa. Fátima traiu a amiga Solange e se casou com Afonso. Foi morar em Paris com o marido e o amante. Voltou para o Brasil com o marido e o amante. Ela ainda chantageou Marco Aurélio; se aliou com Odete para destruir o romance da mãe com Ivan; tentou dar o golpe da barriga, mas o filho não era de Afonso. Tentou abortar o filho se jogando da escadaria do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Quando descobriu que Solange também estava grávida, armou um acidente de trânsito, na tentativa de fazer a franjudinha perder o bebê, mas pela gravidade do acidente, Solange poderia ter até morrido, afinal, naquela época o cinto era item de decoração e o carro tinha capotado… Mas o plano deu errado e a gata saiu sem escoriações (novela, né?).

Fátima ainda tentou roubar uma joia de Celina, mas acaba deixando com que a empregada Marina seja culpada pelo crime. E ainda vendeu o filho, depois recuperado pela Raquel.

Odete Roitman: Manipuladora da família, controladora, humilha pessoas que acha não serem dignas, acaba perseguindo Raquel, pois ficou na obsessão de que a filha, Heleninha, tinha que ficar com Ivan. Tenta até mesmo criar um crime contra Raquel que poderia matar muitas pessoas por envenenamento. Corrupta, não se furtou quando soube do golpe de Marco Aurélio na cidade fictícia do nordeste. Homofóbica, xenófoba, eugenista, elitista, racista. Se alia com Fátima para forçar que o filho Afonso more definitivamente em Paris. Viciada em gigolôs, ela não obtém muito sucesso nessa área.

“80 milhões de baderneiros só podem ser governados por chicote.”

Os segredos de Odete:

Spoiler!

O assassinato de Leonardo, o filho mais velho de Odete:

Numa casa de verão, em Angra, estavam Heleninha, Marco Aurélio, Thiago ainda criança, a empregada Ruth, Odete e seu marido já debilitado.

Ainda casados, Heleninha desconfiava duma traição de Marco Aurélio. Eles brigam em Angra e ele sai de carro. Heleninha quis ir atrás, já bêbada.

A família também tinha dois apartamentos em Porto Galo, perto de Angra. Num dos apartamentos morava Leonardo, irmão mais velho de Heleninha e Afonso.

Ruth, a empregada, foi de carro com Heleninha. Chegando lá, Ruth chamou Leonardo e foram para o outro apartamento, onde Heleninha desconfiava que estava Marco Aurélio e sua suposta amante, mas eles acabaram flagrando mesmo a Odete com um amante, amigo de Leonardo.

Leonardo, enfurecido, quis contar tudo para o pai. O irmão mais velho pegou todos e foram para o carro, de volta para Angra. No meio do caminho, Leonardo deixou o veículo nas mãos da Odete, enquanto tentava segurar Heleninha, que estava no banco de trás, descontrolada.

Acontece, então um acidente. Leonardo é o mais ferido de todos. Heleninha se desespera.

Um incêndio na casa de Angra começa. Odete nervosa e fumando muito, derruba o cigarro, causando destruição na casa e quase vitimando o neto, Thiago.

Odete agiu rápido e aproveitou que Helena estava muito fragilizada e colocou a culpa de tudo nela, inclusive da morte de Leonardo. Por isso, Helena acaba sendo internada e perde a guarda do filho.

Odete ainda suborna a empregada Ruth, dando dinheiro para ela fugir do país e não voltar.

Exame falso:

Afonso chegou a engravidar uma funcionária de uma fazenda deles, e ela queria dinheiro. Odete, então, fez de tudo para tirar a responsabilidade de Afonso, inclusive o exame falso de fertilidade.

Quem matou Odete Roitman?

Na verdade a pergunta deveria ser “Quem não queria matar Odete Roitman?”, pois é impossível não desejar a morte dela.

Capítulos-chave da história

Contém spoilers

Capítulos 01 e 02: Início da trama, condensados em um único capítulo
Capítulo 10: o diálogo de Raquel e Fátima.
Capítulo 17: conflito de classes
Capítulo 18: prenúncio de uma morte
Capítulo 21: desvalorização do trabalho artístico
Capítulo 28 e 29: Odete aparece
Capítulo 30: Odete entra em cena de vez
Capítulo 34: Odete mostrando sua verdadeira face: racista, elitista, xenofóbica e eugenista.
Capítulo 35: prenúncio de uma aliança perversa
Capítulo 44: A MALA! A MALA!
Capítulo 62: “Aliada pelo resto da minha vida”, diz Odete para Fátima. Quase que um prenúncio de um final trágico
Capítulo 72: você começa a torcer para Fátima apanhar.
Capítulo 78: Histórico!
Capítulo 79: Uma sequência foda! Fátima contando TUDO pra Raquel, sem qualquer pudor.
Capítulo 80: Ponto de convergência e cena mais histórica da TV globo.
Capítulo 102: Clipe de Cazuza na TV, numa época que MTV estava se tornando relevante.
Capítulo 111: Mário Sérgio faz um discurso sobre gente extremamente rica. “Empresário honesto eu nunca vi”. União Soviética ainda existia e a critica que Renato faz é total sem sentido, que as pessoas se desestimularam a trabalhar em regimes socialistas.
Capítulo 114: uma das cenas mais pesadas e importantes da novela: Heleninha bebe, sofre tentativa de estupro, apanha do assediador e destrói um bar. Uma cena extensa até. Helena sai numa camisa de força.
Capítulo 117: as músicas internacionais começam a tocar nas cenas. Marco de uma época, as músicas internacionais ditavam que a novela estava se encaminhando para o fim, ou uma segunda fase cronológica.
Capítulos 121 e 122: erro de continuidade
Capítulo 131: mais atrocidades de Odete.
Capítulo 153: “Você se serve do país, mas o país não se serve pra você?!” – Fala do Afonso sobre Marco Aurélio dizer em retirar dinheiro do país.
Capítulo 156: A cena do pileque da Heleninha era pra ser bem séria, mas aí Renata Sorrah bagunçou o cabelo do Humberto… Ficou algo engraçado.
Capítulos 159 e 160: revelação de tudo que Fátima fez.
Capítulo 173: Heleninha aparece bêbada na maternidade. Claramente o áudio é prejudicado e cortam o áudio da cena.
Capítulo 174: a revelação da paternidade do filho de Raquel, que é do Cesar.
Capítulo 176: Raquel decide ficar com a criança, mas sem Fátima.
Capítulo 182: monólogo enorme, que eu tenho que tirar meu chapéu pra Regina Duarte, pois ela segurou muito… Até ela caga no final da cena.
Capítulo 183: “Hey disc jockey, Bota um mambo aí!”
Capítulo 193: exibido no dia 24/12/1988, um sábado. Assassinato de Odete.
Capítulo 204: direção e edição usando e abusando de modernidades, transições entre cenas, como se fossem uma colcha de retalhos. Revelação de quem matou Odete.

Interpretações

Quase todo mundo consegue ter o seu momento de brilho em Vale Tudo.

Beatriz Segall está perfeita em sua atuação.

Nathália Timberg também brilha como irmã boa da vilã.

Mordomo Eugênio, de Sérgio Mamberti é um clássico.

Alguns atores também têm seu destaque em determinados momentos da trama, como Stephan Nercessian e seu Jarbas, que chega a fazer uma ótima dobradinha com Eugênio; Fernanda, de Flávia Monteiro também tem algumas cenas muito boas. Apesar de uma participação bem curta, Tereza Mascarenhas também entrega atuação como Cláudia, a modelo que era enfermeira e ex-namorada de Marco Aurélio.

Daniel Filho está perfeito! Incrível atuação, emocionante mesmo.

O texto de Gilberto Braga

Apesar da novela trazer o nome de Leonor Bassères nos créditos da abertura, a novela é de Gilberto Braga, pois imprime o DNA dele nos textos. Aguinaldo Silva também assina a novela, como colaborador.
E o texto, ou melhor, os textos de Gilberto Braga são muito bons.

Raros, hoje em dia, a novela é recheada de monólogos muito interessantes, extensos e importantes. Ele consegue retratar com maestria o Brasil de 1988: a novela faz duras críticas ao cenário da época, recém saído de uma ditadura, quase que como uma cartase de críticas que estavam “engasgadas” pela opressão. A obra reflete até nas dinâmicas sociais, das diferenças de gerações e possibilidades de abertura de conversas.

Gilberto Braga nos mostra o Brasil: um país sem SUS, velórios e cemitérios privados (dejavú São Paulo?), Lei Sarney de incentivo à cultura (que não era aquelas coisas), a reforma agrária (que até hoje em dia não foi realizada), a desvalorização do jornalismo e jornalistas (assunto também atual). Até mesmo coisas como usar gravadores para registrar declarações, e fazer cópias dessas gravações (João Emanuel Carneiro chora).

Até mesmo assuntos como o aumento da igreja evangélica passa bem rápido, mas passa.

Já naquela época, Gilberto Braga aborda temas como prestígio versus fama, a hipocrisia da mídia social tradicional.

O autor ainda fala muito sobre impostos… Coincidência?!

Há uma celeuma sobre a mídia e o jornalismo. Curioso é que a novela usa o jornal do grupo Globo para “criticar” os “excessos” do jornalismo.

Há uma dualidade primária em Vale Tudo. 8 ou 80: Raquel super honesta e, por vezes, hipócrita; Fátima super ambiciosa, sede de poder, de dinheiro, status. Bom, é novela, né?! Precisa ter essa dinâmica, senão vira outra coisa, algo sem identidade. E a edição faz questão de apontar essa dualidade, alternando entre cenas com Raquel e Fátima, Raquel e Odete. Bonzinhos e malvados. O problema dos malvados é que eles são transparentes e nossa sociedade valoriza demais as pessoas transparentes, mesmo quando elas são extremas.

Moda e tecnologia

Ombreiras era para todos! Homens e mulheres usavam aquelas almofadas nos ombros.

Sungas cavadíssimas para homens, para nosso deleite.

Shorts beira-cu também era algo para todos.

Laser Disk era novidade da época.

Testes de DNA estavam começando a ser feitos, naquela época chamada de ADN.

“Descurtir” era gíria da época.

Curiosidades e anotações

A novela, na globoplay funciona de forma diferente, tanto que os dois primeiros capítulos são condensados em um só, enquanto há uma estranha quebra de ritmo entre os capítulos 121 e 122, sendo que o capítulo 121 termina de uma forma e o 122 começa de outra. O 122 tinha sido dividido em duas partes, mas eles juntaram também, tanto que o capítulo é identificado como “122 A”, porém ele mais parece o “122 B”, pela quebra de sequência, ainda mais porque os personagens falam de cenas que aconteceram.

As cenas de traição de Ivan e Raquel são estranhas… Um cenário preto com uma lanterna laranja ao fundo, como se eles estivessem numa redoma, num mundo diferente, descolados da realidade, porém falando assuntos da própria realidade.

Ivan chega a mencionar que empregadas tinham mais direito… PEC das domésticas só foi promulgada em 2013.

A moeda local era tão desvalorizada que a trama se passa com dólares.

A novela, da metade para o fim, se mostra como veículo de responsabilidade social, mesmo com cenas questionáveis de “pequenos crimes“, até mesmo sobre adoção estrangeira, como uma alternativa a uma vida melhor.

Existe algo interessante sobre a questão do alcoolismo: ao mesmo tempo que mostra cenas de pessoas compartilhando cerveja, não é o que Heleninha bebe quando fica bêbada, até porque a cerveja era patrocinada, assim como o vinho.

A novela teve grande relevância na cultura popular brasileira, onde muito ricos acabam se dando bem, quando não se matam, e pobre só se fode.

A novela acaba antes de terminar, quando, na escolha dos escritores, direção e editores terem escolhidos o tema “quem matou?” como principal mote final, mas já nos primeiros minutos do último capítulo a novela revela quem foi.

Existem passagens de tempo com imagens das pessoas, principalmente com pessoas em situação pobre, populares. De início ela tem como trilha a música “É”, de Gonzaguinha. Depois ela foi substituída por uma música do Rod Stewart, o plagiador de Jorge Ben Jor.

“Onde é que esse país vai parar?” quase que um mantra na novela.

Chega uma hora que as críticas ao país passa um pouco. 1988 era fim do mundo mesmo, aparentemente.

Apesar da novela ter marcado história, ela não foi a que teve a maior audiência da história da emissora, apesar do pico de 81 pontos, no dia do assassinato de Odete.

A gente reclama, hoje, dos elencos repetidos de novelas, mas essa já é uma prática antiga. Parte do elenco de Dancin’ Days (1978) está em Vale Tudo (1988) e também em Tieta (1990).

As cenas de delegacia são caricatas demais.

A falta de cenas no exterior não ajudam em alguns enredos.

Update: Manuela Dias, responsável pelo remake de Vale Tudo, disse, categoricamente que a história original de Gilberto Braga sempre foi de uma protagonista negra. Isso é uma opinião dela. Infelizmente não existe qualquer registro que ele, ou seus co-autores tenham dito isso. 1988 era um momento totalmente diferente de 2025 (e isso não é uma desculpa, mas sim um triste fato da nossa história).

Aliás, um registro histórico interessante: A primeira protagonista negra, numa novela brasileira, foi Yolanda Braga, em 1965, na novela “A Cor da sua Pele”, na extinta TV Tupi. Na TV Globo isso só foi acontecer em 2004, com Da Cor do Pecado.

Existem muitos questionamentos se, em 1969, a TV Globo teve sua primeira protagonista negra, a incrível Ruth de Souza, na novela “A Cabana do Pai Tomás“, pois o ator protagonista fez blackface para interpretar o personagem Tomás.

Ideias

Ao longo da novela, eu fiquei imaginando situações e cenas que poderiam acrescentar na história:

Seria uma boa se…

No caso da tentativa de envenenamento, pelo bem da audiência, Raquel poderia usar a informação do gigolô e segurar ele até conseguir todas as provas contra Odete. Inclusive fazendo ele falhar em todas as tentativas da Odete prejudicar a Raquel.

Chega um momento que o alcoolismo de Heleninha vira algo de moralismo… Senti falta de uma alma errante como a Heleninha, que embarcasse nas loucuras com ela, depois partisse e fizesse ela repensar. Tipo chegar ao fundo do poço e ver a escuridão, até que algo faz ela refletir e emergir de volta.

A trama de Heleninha é muito complicada, pois o texto acaba sendo fraco e ninguém fala a verdade para a Odete! Ela é a culpada pelo estado da Heleninha, ela quem quer delegar a responsabilidade dela para outras pessoas, como se elas fossem realmente responsáveis pelo bem estar da Heleninha.

Eu colocaria uma pitada a mais: Maria de Fátima deveria ser a filha de Odete e Afonso o filho de Raquel. Ambos tem quase a mesma idade, e Odete, depois de recusar Heleninha, resolve trocar a filha por um menino.

Trilha Sonora

Além da clássica música de abertura da novela, “Brasil”, cantada por Gal Costa, a novela trouxe muitos hits da época. Destaque para Pense e Dance, do Barão Vermelho, Isto Aqui o Que É, de Caetano Veloso, É, de Gonzaguinha, Faz Parte do Meu Show, de Cazuza, entre outras…

Os temas, tanto nacional, como internacional de Raquel e Ivan eram peculiares. Desde Tá Combinado, de Maria Bethânia:

Então tá combinado, é quase nada
É tudo somente sexo e amizade
Não tem nenhum engano nem mistério
É tudo só brincadeira e verdade

Até Baby Can I Hold, de Tracy Chapman:

Sorry
Is all that you can say
Years gone by and still
Words don’t come easily
Like sorry, like sorry

Músicas quase que de um “não casal”, o que atenua ainda mais a falta de química entre os dois.

Pequenos problemas

A novela, como qualquer outra produção audiovisual não chega a ser perfeita. Aqui, os problemas que mais chamam atenção envolve o áudio: gelo batendo nos copos, microfones distantes dos atores, cenas externas sem microfones… Mas nada que estrague a experiência por completo.

Há ainda alguns poucos questionamentos que ficaram em aberto:

Mais spoilers!

Afinal, Freitas roubou o ouro do Marco Aurélio? Por que Deise foi presa?

Regina Duarte criou a cena de fechar a porta e descer, encostada nela, chorando?

Referências?

Com mais de 50 anos de novela brasileira, é quase impossível não haver comparações de personagens:
Maria da Paz (Dona do Pedaço) estaria fazendo uma referência à Raquel? Bia Falcão (Belíssima) foi uma homenagem à Odete Roitman?

Globo: 60 anos de emissora, 100 anos do conglomerado

Roberto Marinho, criador da globo, que tinha apoiado a ditadura de 1964, nasceu dentro do regime (1965), faz uma novela como Vale Tudo, mas depois interfere nas eleições de 1989. A globo, que, recentemente, assumiu seus erros, mas que em 2016 saiu no bonde golpista (de novo) contra a Dilma, sendo porta-voz de Sérgio Moro e cia. Qual será a próxima do conglomerado?

Vale Tudo 1988 – Mais um review enorme para uma grande novela

Dancin’ Days – A saga feminina, crítica à burguesia e muita música!

Aperta o play e comece a dançar!

No dia 10 de julho de 1978, estreava na TV Globo a novela histórica de Gilberto Braga, num país ainda em ditadura burguesa/militar e afundado em problemas sociais. Começava aqui a saga de Julia Matos e tantas outras mulheres que brilharam na trama que teve 174 capítulos.

Prólogo

Julia Matos (Sônia Braga) era filha de pais pobres. O pai tinha predileção à sua irmã, Yolanda (Joana Fomm). Desde cedo as duas demonstram rivalidade. Enquanto Yolanda estudava em colégio de freiras, Julia estudava em escola pública, largando dos estudos e se envolvendo com pessoas complicadas.

Elas perdem o pai cedo.

Aos 17, Julia engravida e dá luz à Marisa, mas deixa a criança aos cuidados da mãe. Aos 21 anos, Julia é presa após uma fuga desastrada, de um assalto, que culminou no atropelamento e morte de um homem. Ela foi condenada à 22 anos de prisão. Julia até concorda em deixar Marisa em um orfanato, mas Yolanda acaba pegando a menina para criar, como se fosse sua filha, tentando apagar de sua história a irmã presa.

A Novela

Dancin’ Days gira em torno da história de Julia (Sonia Braga), que sai da prisão em liberdade condicional, e tenta reaver sua vida e sua relação com Marisa (uma jovem Gloria Pires, de apenas 15 anos), sua filha que acaba sendo criada por Yolanda (Joana Fomm), sua irmã. Mas Yolanda faz de tudo para afastar a mãe da filha. Yolanda é casada com Horácio (José Lewgoy), mas num casamento apenas para subir na vida. A princípio até parece que eles têm uma relação saudável, mas ao longo da trama percebemos que ela só queria mesmo era o status e dinheiro. Criada neste ambiente, Marisa se torna uma adolescente chata e mimada.

A novela não tem muito apreço pelo espaço-tempo, então é preciso prestar atenção, pois, muitas vezes, existem passagens de tempo que você só entende quando algum personagem fala algo que denota essa linha temporal.

Julia conta com seus amigos, Jofre (Milton Moraes), que a conhece desde a adolescência conturbada, e Carminha (Pepita Rodrigues em sua melhor atuação, chegando a roubar a cena por várias vezes), namorada de Jofre.

Carminha até oferece um quarto para Julia morar, pagando o aluguel e ajudando nas despesas do apartamento. De início, Seu Alberico (Mario Lago) não gosta da ideia de alugar um quarto do apartamento, pois ele também vem de uma vida de aparências, só que sem dinheiro, pois todos os seus empreendimentos deram errado. Mas Seu Alberico é sonhador e um tanto iludido, deixando Carminha sempre nervosa com suas ideias mirabolantes.

Julia tenta organizar sua vida, procurando trabalho, mas vê que uma vida de ex-presidiária não é fácil, sofrendo bastante preconceito e empregos com salários baixíssimos.

Elenco

A novela tem até um elenco enxuto, mas com histórias riquíssimas. Além do núcleo dos Pratini: Yolanda (Joana Fomm), Marisa (Glória Pires), Horácio (José Lewgoy) e Everaldo (Renato Pedrosa), o empregado; temos o núcleo Santos

Alberico (Mario Lago)
Esther (Lourdes Mayer)
Áurea (Yara Amaral)
Aníbal (Ivan Cândido)
Inês (Sura Berditchevsky)
Carminha (Pepita Rodrigues)
Vera (Lídia Brondi)
Marlene (Chica Xavier)
Júlio Luiz (Paulo Cesar);

O núcelo Cardoso:
Cacá (Antonio fagundes)
Franklin (Cláudio Coorrêa e Castro)
Celina (Beatriz Segall)
Beto (Lauro Corona)
Neide (Regina Vianna);

Além de núcleos diversos com Diana Morel (Anita), Ubirajara (Ary Fontoura), Alzira (Gracinda Freire) irmã de Jofre, Solange (Jacqueline Laurence), Emília (Cleyde Blota), Raul (Eduardo Tornaghi) filho de Emília, Bibi (Mira Palheta), Ricardo (Osmar de Mattos), Leila (Suzana Queiroz), Lulu – que eu até achei que era o Beto Simas, mas era o Luciano Sabino -, Madalena (Neuza Borges), e os personagens que entram ao longo da trama, como o Arthur (Mauro Mendonça), Paulette (Paulo Bacellar), Cunha (Fernando Amaral), Chiquinho (Silvio Fróes), Luciana (Rejane Schumann)… Não consegui achar, nem mesmo nos sites mais especializados, o nome da atriz que interpretou Ana Maria, a amante de Aníbal, importante pesonagem para o final da trama, apesar de não ter sido tão desenvolvida.

Fora estes, a novela traz surpresas com figurações de Daniel Filho, diretor da trama, Eri Johnson, Danuza Leão, Gal Costa, Ney Latorraca e as próprias Frenéticas, que cantaram o tema de abertura, na inauguração da discoteca homônima ao nome da novela. Tiveram mais participações especiais, mas estas foram as que eu consegui identificar.

A novela me cativou por ser uma trama muito bem amarrada, um certo amadorismo técnico, com cenas contra luz, áudio falho, mas ao mesmo tempo uma naturalidade no texto e nos erros. Tem um erro muito bom, que passou meio que desapercebido, onde Mario Lago acaba saindo do personagem e todos caem na risada. Ao ser tocado no ombro pelo Lauro Corona, Mario exclama: “Ai minha bursite!” e todos riem, mas a cena continua.

É muito interessante ver a construção dos personagens e como eles evoluem ao longo da trama (ainda que alguns regridam no meio da trama, como no caso da Carminha, que ganha uma boneca do pai – uma cena tocante até, mas que fica patética ao longo que se passam capítulos e mais capítulos dela agarrada com a boneca).

Queen

Todas as mulheres da trama têm seu destaque pessoal, mas Solange, interpretada magistralmente pela Jacqueline Laurence, ganha destaque por sua construção de personagem, que de início até parece uma mulher escrota e insuportável, mas que demonstra ser uma Amiga, com “A” maiúsculo mesmo. Ela defende Julia com unhas e dentes, como na cena que ela confronta a mimada Marisa, que até dá um tapa na cara da loira, mas foi uma das cenas mais incríveis (apesar do uso de alguns termos pesados).

Ubirajara

Quando o personagem apareceu pela primeira vez, eu achei que ele era gay, pois ele seguia um modelo que frequentava sua academia/sauna, chegando a pedir para Vera, que pedisse ao modelo, o Ricardo, fotos dele… Mas, depois, se nota que ele conversava via carta com uma “namorada” à distância.

Não para por aí! Personagem complexo, essa trama da namorada se perde pelo caminho e ele se mostra um homem tarado, que tinha em seu escritório um mural na parede de fotos de mulheres seminuas. Depois, ele pede a um fotógrafo que siga a Julia, pois ele acaba tendo uma paixonite na mulher e cola fotos enormes da moça na praia. Stalker? Talvez…

Julia, com os nervos a flor da pele, acaba desmaiando na sala de ginástica da academia de Ubirajara, que encontra ela e meio que a sequestra ao levá-la para a casa dele, onde ela fica um bom tempo. Ela até descobre as fotos que ele mandou tirar, mas não faz nada… Ao contrário, depois de muito tempo, chega a noivar com ele.

Existe um momento da trama em que Julia conversa com Cacá e fica subentendido que Ubirajara fosse virgem. No fim, ele acaba se casando com a Alzira, irmã de Jofre.

Saúde

A trama também surpreende por trazer assuntos bem relevantes. Como o SUS foi criado somente em 1988, com a Constituição Federal, a novela retratava a falta de acesso e os valores altos de consultas e médicos. Numa cena, a filha de Madalena sofre um acidente, quando um menino passa com uma pipa na frente dela e acaba machucando seu olho. Julia não titubeia e leva a filha da amiga no hospital e a conta fica em 40 mil cruzeiros (que na época era muito). Viva o SUS!

Há também a questão da saúde mental. Áurea, mulher que nasceu com crenças retrógradas e puritanas, se vê em total estado de depressão, mania e até pensamentos suicidas depois de perder o marido num trágico acidente, endeusá-lo, namorar com um cara casado e se ver no papel de amante, além de saber que a filha tinha terminado o noivado com o diplomata Carlos Eduardo, vulgo Cacá. Isso tudo culminou numa crise nervosa que ela quase destruiu a loja de Emília. Com isso, ela acabou sendo internada numa clínica terapêutica, recebendo eletrochoques. Ao saber disso, Raul, que é psiquiatra na trama, conversa com Inês para tirar Áurea da clínica. Então, Áurea começa psicoterapia e tem uma melhora muito mais satisfatória.

Gírias

Acho que o primeiro baque que você tem ao assistir DD é a palavra TRANSAR e como, antigamente, ela era usada como se fosse um verbo qualquer, que não houvesse conotação sexual, como foi mudando ao logo do tempo. Então é bem comum de se ouvir falas do tipo: “Vou transar com meu pai”.
Mas, por ser uma novela da atualidade, feita de acordo com a época que foi exibida, existem algumas outras gírias interessantes:

  • Fazer gênero = fazer cena; se passar.
  • Atarantado = atordoado; perdido.
  • Roer a corda = desistir.

Falando em Transar…

Dancin’ Days foi exibida de julho de 1978 à 27 de janeiro de 1979, ainda dentro da ditadura militar. Há quem diga que o regime, da época, censurou 25 capítulos. O que me leva ao questionamento: esses capítulos eram destruídos e nenhuma cópia salva? Nem ao menos os roteiros salvos? O que continham esses capítulos?

De qualquer forma, a mesma ditadura que sentenciou esses possíveis 25 capítulos, fez-se de sonsa ao deixar imagens de mulheres seminuas nos cenários e história de menor de idade casando e tendo filho (caso da Marisa, que, mesmo não conhecendo a mãe, acabou por seguir o mesmo caminho dela, só que pela vontade de Yolanda).

Segundo o antigo site da Globo sobre a questão da ditadura:

“A maior preocupação era o linguajar dos personagens e as relações familiares e amorosas.”

Mas, documentos da época mostram que a ditadura era só fachada mesmo. Num dos documentos, a censura pede o corte da palavra “pipizinho”:

A novela não contém nenhuma cena de sexo, até os beijos eram estritamente coreografados, tanto que o beijo que eu acho mais bonito, na obra, é quando Cacá dá um beijo no olho de Julia.

Luta de Classes

Apesar dessa estupidez galopante dos milicos, Gilberto Braga conseguiu tocar em assuntos bem relevantes, tanto para época, quanto hoje, onde ainda vivemos sob a sombra de uma sociedade burguesa.

Cacá tem muito dessa inquietação, desde as primeiras cenas. Depressivo, em Brasília, ele lê um livro que questiona muito sobre a vida: “O estrangeiro”

Além disso, Cacá, por várias oportunidades questiona a sociedade burguesa em que ele mesmo é inserido. Filho de advogado e de uma dona de casa herdeira, ele questiona costumes e pensamentos.

Uma menção honrosa e horrorosa são os personagens Maria Lúcia (Maria Lúcia Dahl) e Alberto (Guaracy Valente). Uma caricatura belíssima de uma burguesia falida, mas que não perde a pose.

A luta de classes é pertinente na trama, desde as falas inoportunas e preconceituosas do Seu Alberico, bem como Franklin e até mesmo o Everaldo, que se coloca numa posição total de subserviência (um pouco romantizada na novela). Até mesmo na história de Yolanda há um episódio de luta de classe:

Quando criança, Yolanda estudava num colégio de freiras, particular. Era bolsista por conta do pai trabalhar num banco e ser querido por um dos diretores. Porém, um dia, sumiu uma caneta de ouro de uma das alunas e revistaram todas as coisas de Yolanda. Nunca encontraram a tal caneta. Desde então, Yolanda decidiu não mais viver sob esse olhar aporofóbico (preconceito contra pobres).

Marisa e Beto: O privilégio branco burguês

Ainda dentro dessa luta de classes, acompanhamos a história de duas pessoas brancas, burguesas que se aproveitam bastante de seus privilégios:

Marisa, mimada e inconsequente, faz tudo o que quer e tem tudo quando faz birra.
Beto, um jovem que não quer nada da vida, finge para os pais que faz cursinho para vestibular, mas fica fazendo voos de asa-delta.

Ambos de família rica, não se importam com nada. São casados sem ao menos terem vontade. A lua de mel? Uma viagem para Disnleylândia com Celina na mala. Eles GANHAM um apartamento mobiliado para começar a vida adulta, mas se recusam a morar. Marisa engravida e dá luz ao Edgar, porém ela não se importa tanto com o filho. Claro, conforme a trama avança e as coisas acontecem, eles “crescem” e deixam de ter atitudes infantis.

Briga! Briga! Briga!

Novela que é novela tem que ter uma briga, mas Dancin’ Days foge um pouco do óbvio, pois apresenta para nós, muitas discussões incríveis, dignas de serem apreciadas minuto a minuto, segundo a segundo, pois vale muito a pena!

O primeiro grande confronto é entre Carminha e Áurea, quando Áurea descobre que Julia é ex-presidiária e humilha a moça. Carminha detona a irmã e faz ela pedir desculpas para Julia.

Celina briga com Franklin e Beatriz Segall brilha em cena.

Julia dando um soco na cara de Franklin (merecido demais, ainda mais depois que você descobre o quão podre é este homem).

Solange tomou lado da Julia, numa defesa maravilhosa contra os melindres da Marisa. Inventaram um “encontro casual” onde rolou até um tapa da Marisa na Solange, mas Marisa mereceu cada dura palavra (até palavrão).

E não para por aí! Solange enfrentou a Yolanda. “Eu enfrentei nazistas na França ocupada, com cinco anos de idade, com certeza não vai ser granfina no desvio que vai me assustar”.

Anotações

Enquanto eu assistia a novela, eu ia anotando o que me chamava atenção. Então, para registro para a posteridade:

  • Alzira, irmã de Jofre, fica a novela toda prometendo trabalho para as pessoas… Quando ela consegue, a pessoa tem um surto psicológico e para de trabalhar;
  • Fiquei todo besta a cada cena de amor entre Julia e Cacá, pois exalava cumplicidade;
  • Diálogos no carro. Muitos diálogos;
  • Madalena cantando, coisa linda. Neuza Borges era uma DIVA!
  • Rola racismo religioso, mas também rola uma coisa meio fé vs ciência, quando Alzira leva Áurea no centro espírita;
  • Eu achei que Julia iria terminar sozinha, seria incrível;
  • Alberico inventou o Uber e o 5 à sec;
  • Alguns capítulos na globoplay tem uns 30 minutos, por isso até passam rápido. O capítulo 37 parece um amontoado de cenas. O penúltimo tem só 15 minutos, pois nem a plataforma aguentou tanto flashback;
  • Existem alguns problemas com a novela, principalmente com continuidade, algumas transições que não fazem muito sentido, uns intervalos em momentos inoportunos. É um pouco irritante. E repetição de falas. Tem momentos que parecem importantes, mas outros, atrapalham a continuidade;
  • Quando eu comecei a assistir a novela, eu percebi que a captação do áudio não era das melhores, ainda mais em cenas externas, então tive que ativar a legenda da Globoplay para que eu pudesse acompanhar melhor a novela e me acostumei, assistindo até o fim com a legenda. Em Dancin’ Days, os personagens em específico, usavam muito o tal do Muxoxo, entre as falas e isso me chamou muito a atenção, pois desconhecia o termo para este som que emitimos;
  • Tem diálogos enormes, mas maravilhosos;
  • É uma novela sobre emancipação feminina, exaltação da mulher, maravilhoso;
  • Eu tenho um tesão absurdo no Antônio Fagundes:
Reprodução Globoplay

Vocês não acham também??

Enfim, assistam essa preciosidade na Globoplay! Recomendo demais!

Dancin’ Days – A saga feminina, crítica à burguesia e muita música!

[Repost] Renascer 1993: Uma novela épica (e o texto também, tão longo quanto a novela)

(Este post foi escrito antes da estreia do remake/reboot da novela de 2024)

Que Benedito Ruy Barbosa faz parte da teledramaturgia brasileira, todo mundo já sabe. Todo mundo também sabe que ele tem em seu currículo obras que marcaram história, como Meu Pedacinho de Chão, Sinhá Moça e Pantanal (todas que já ganharam remake pela Globo).

De volta aos anos 90

No artigo sobre A Viagem, eu discorri um pouco sobre como foram os anos 90 e aqui não será diferente. Uma época sem muitas regulações: preconceito a rodo sem qualquer questionamento, o não uso do cinto de segurança, os comerciais de cerveja na novela, misturados (não literalmente) com leite em pó e doces em lata.

Renascer: A volta de Benedito para Globo

Em 1990 a Manchete fez história ao exibir a novela de Juma Marruá e Zé Leôncio. A curiosidade está que a Globo tinha engavetada a novela por muitos anos, chegando a entrar em pré-produção em 1984, mas desistiu.

Depois do grande sucesso de Pantanal, Benedito Ruy Barbosa volta à Globo com carta-branca para contar a história que quisesse, mas ele escolheu seguir no mesmo ritmo de Pantal, e assim surgiu Renascer.

Tenho por mim que a novela foi meio que uma “resposta” sobre o sucesso de Pantanal, até porque, Roberto Marinho chegou a desdenhar da novela de sucesso da Manchete.

A épica história de Zé Inocêncio

Com 213 capítulos, Renascer conta a história de Zé Inocêncio, que desbrava o sul da Bahia para ter seu canto e viver do Cacau. Ele finca seu facão nos pés do Jequitibá rei, num monólogo icônico de Leonardo Vieira (“Enquanto o meu facão estiver encravado aos seus pés, nem eu nem você haveremos de morrer… nem de morte matada… nem de morte morrida!”), que fez o personagem jovem, mas que não se assemelhava muito ao Antônio Fagundes, que viria a ser Zé Inocêncio na segunda fase. A autuação de Leonardo tem seus altos e baixos (mais baixos do que altos).

Mas a vida de Zé Inocêncio não foi fácil. Logo, ele caiu em sua primeira tocaia: jagunços, com a liderança de Firmino, depelam Zé Inocêncio (numa cena bem gráfica, mas estamos falando dos anos 90).

Rashid (Luiz Carlos Arutin), que vinha passando pelo caminho, e que também fora vítima dos jagunços, encontrou Zé Inocêncio pendurado de cabeça para baixo e depelado. O turco libanês costura as costas de Zé Inocêncio, mas some na trama, voltando mais tarde.

A primeira fase da novela deveria durar mais tempo do que foi exibida, mas houve uma edição corrida, que não aprofundou nos personagens. Mal se fala das origens de Jupará (Gésio Amadeu), Inácia (Solange Couto) e Deocleciano (Leonardo Brício), que vinham a ser seus criados (agregados, como se diz na novela, pois Zé Inocêncio não era muito a favor de leis trabalhistas e direitos).

Patrícia França fez Maria Santa, uma menina com anemia que vivia desanimada (acho que era para passar a imagem de inocente e nova, mas acabou como uma mocinha apática nos primeiros momentos).

Zé Inocêncio tem amor a primeira vista por Maria Santa, mas seu pai boi não aceita o relacionamento dos dois. Pai Boi (Cacá Carvalho), este, que abusou da irmã de Maria Santa, Marianinha, e a engravidou, depois expulsando a menina da casa. Esse fato só é explicado nos últimos capítulos da novela.

Voltando para a história central

Zé Inocêncio beija Maria Santa, meio que à força. Maria Santa acaba acreditando que engravidou por um beijo. Pai boi resolve largar a filha “desonrada” na casa de Jacutinga, a dona de um put bordel. Lá, Maria Santa descobre que ainda é virgem, mas se apaixona por Zé Inocêncio. Ambos acabam casando, pela celebração de Padre Santo, na casa de Jacutinga.

Além de dona de bordel, conselheira, educadora sexual, nas horas vagas Jacutinga também é parteira. Ela faz todos os partos de Maria Santa, mas no último, que Zé Inocêncio acreditava ser uma menina, nasce João Pedro (Marcos Palmeira). Maria Santa acaba morrendo depois do parto e Zé Inocêncio renega seu filho mais novo pela primeira vez.

Deocleciano então leva o recém nascido para os braços de sua esposa, Morena (Cyrya Coentro), que estava depressiva por ter perdido seu filho no parto. Morena até começa a ter leite, que alimenta João Pedro, nome este, dado por ela. Mas, mesmo rejeitando, Zé Inocêncio pega o filho de volta.

Filho este que é tratado diferente dos demais: Zé Bento (Tarcísio Filho), Zé Venâncio (Taumaturgo Ferreira) e Zé Augusto (Marco Ricca), tanto que João Pedro não recebe educação escolar, pois prefere ficar ao lado do pai, recebendo migalhas de afeto.

Belarmino, morto por Zé Inocêncio, para defender suas terras, numa das melhores cenas da primeira fase: Belarmino arma a – que seria – segunda tocaia e leva um tiro, e, aproveitando da situação, ele se finge de morto para dar o troco em Belarmino, que confessa tudo ao lado do caixão, bebendo o defunto. Ao “ressuscitar”, Zé Inocêncio faz Belarmino largar a mão de suas roças e, depois, mata o desinfeliz. Belarmino foi interpretado magistralmente por José Wilker, com seu bordão “É justo, muito justo, é justíssimo”.

Passa o tempo…

Mariana: a vilã que não foi

Interpretada por Adriana Esteves, muito antes de virar Catarina e perpetuar o mesmo personagem por papéis conseguintes, Mariana surge na casa de Jacutinga, e numa visita ao bordel, João Pedro sente um interesse pela neta de Belarmino.

João Pedro até insiste em umas investidas em Mariana, mas ela acaba se jogando nos braços de Zé Inocêncio. A tal da briga entre pai e filho não acontece por conta de Mariana, apesar dos telespectadores interpretarem dessa forma. Mariana vira um objeto para ambos, que pode ser descartado a qualquer momento, e que, inevitavelmente acontece no futuro.

Mariana perde função na história da metade pro final da novela, depois de frustrada sua tentativa de vingança por seu avô. Mariana perde enredo, voltando só no fim da trama, descobrindo que o amor é maior que o ódio.

Pai (e mãe) é quem cria

Pra mim, a trama central mesmo é a relação de pai e filho, de Zé Inocêncio e João Pedro. Mas, ao decorrer da trama, fica nítido que os verdadeiro pais de João Pedro são Morena (numa espetacular interpretação de Regina Dourado, ganhadora do APCA de melhor atriz coadjuvante), e Deocleciano (Roberto Bonfim, que faz um monólogo incrível sobre a amizade de Deocleciano com Zé Inocêncio).

Jupará tem sua morte subtraída da trama, mas sempre lembrada por seu filo, Zinho jupará (Cosme dos Santos), que acusa Zé Augusto, até então estudante de medicina, de não socorrer o pai. Sua mãe, Flor (Rita Santana), e os irmãos de Zinho somem da trama sem nenhuma explicação, apenas em lamentos de Morena.

As mulheres dos filhos

Na segunda fase se apresentam os filhos de Zé Inocêncio, já adultos, e suas respectivas pares. Zé Bento tem uma relação com Kika (interpretada por Cláudia Lira, belíssima, porém mal explorada na trama, que acaba namorando o detetive canastrão Egberto (José de Abreu).

Detetive este, que é contratado por Eliana (Patrícia Pillar) para investigar seu marido, Zé Venâncio, que tinha uma relação extraconjugal com Buba (Maria Luísa Mendonça). João Pedro, depois do casamento de Marina com Zé Inocêncio, acaba se apaixonando por Sandra (Luciana Braga), filha de Teodoro (interpretado por nosso Roy brasileiro, Herson Capri) e Dona Patroa/Iolanda (num dos melhores arcos da história, vivida pela atriz Eliane Giardini).

Mariana ainda tenta atrapalhar o relacionamento de João Pedro e Sandra, sem sucesso, pois eles acabam tendo sua filha, Maria Santa.

Terceira fase?

Após descobrir que Zé Venâncio namorava Buba (que não tinha nenhum problema com ela ser intersexo), Eliana vai para a fazenda de Zé Inocêncio e acaba se apaixonando por Damião (um Jackson Antunes novo e bem gostoso). Só que Damião – que aparece na trama, contratado por Teodoro para matar Zé Inocêncio, mas acaba virando o capataz do fazendeiro – é casado com Ritinha (uma Isabel Fillardis novinha e linda), que acaba descobrindo a traição do marido e começa a se relacionar com Zé Bento, um traste.

Buba, por outro lado, assume o lugar de Eliana, tenta adotar um bebê, pois Zé Inocêncio pede um neto vindo dela. Ela até acaba usando uma barriga falsa pra enganar o fazendeiro. Na tentativa de adoção, ela acaba conhecendo Teca (Paloma Duarte), uma adolescente grávida que morava na rua. Então, mostrando suas piores ações impulsivas, Buba acolhe Teca, querendo o filho dela. O que ela desconhece é que Teca se relacionou com Du (que não tem ator e nem parte na história, além de ter engravidado Teca e depois ser morto). Buba e Venâncio chegam a ir para a fazenda de Zé Inocêncio, para contar toda a verdade, com a Teca junto, mas Zé Venâncio é morto numa tocaia feita por Teodoro. Buba se desespera mais uma vez e inventa que Zé Venâncio teve uma relação com Teca, que engravidou, mentira essa que foi desmentida no parto de José Inocêncio Neto, onde todos descobriram que ele era preto. Muito racismo recreativo acaba acontecendo nesses momentos, assim como nos momentos em que Zé Bento se envolve com Ritinha, que acaba engravidando de Zé Bento, mesmo ele sendo racista, não querendo mais um “mulatinho” na família.

Buba também enfrenta muitos preconceitos de todos a sua volta, menos de Zé Venâncio. Intersexo, ela passa boa parte da trama sendo chamada de travesti, homem, mesmo ela sendo mulher e se identificando como uma. Os preconceitos são exibidos como se fosse algo natural, algo sem ser questionado, apenas exercido. Buba acaba fazendo uma cirurgia de redesignação sexual e se apaixona pelo irmão de Zé Venâncio, Zé Augusto, que se envolve nas mentiras de Buba. Piadas com o nome morto de Buba, que corrige sua identidade, se chamando Isabela.

A ascensão da real vilã

Eliana ganha muito destaque na trama, crescendo até o fim. Ela mostra seu lado mais interesseiro e egoísta ao tentar ganhar alguma coisa com a morte de seu ex marido, pega o Damião pela fazenda, foge com Damião para São Paulo (cenas com qualidade cinematográfica, numa passagem breve, onde ela leva ele para restaurantes chiques, até baladas GLS, onde Damião até chega a brigar com um gay, que tenta seduzir ele).

Tem uma cena maravilhosa de Damião estonteado pela cidade grande que não percebe a lata de lixo na sua frente, essa sequência vale muito a pena ver.

Eliana ainda investe em Teodoro, que acaba casando com ele, mas continuando a sair com Damião, que acaba engravidando ela. Teodoro acaba sendo morto e ela herda a fazenda. E é ela mesma quem conta todos os crimes de Teodoro, que contava durante a noite, dormindo.

Histórias nem tão paralelas

Apesar de algumas enrolações na trama (bem menos do que a de A Viagem), Benedito faz um bom trabalho com outras histórias e outros personagens que entram na trama. Padre Lívio chega como assistente de Padre Santo. Eles acabam por resgatar Joaninha, Tião e seus dois filhos, só que levam para a fazenda de Teodoro, um coronel safado que tenta abusar de Joaninha. Quem ajuda ela a se livrar do peste é Dona Patroa/Iolanda (Eliane Giardini), que acaba se divorciando de Teodoro e vai morar na antiga casa de Jacutinga.

Tião: a história do brasileiro

Tião tinha apenas um sonho: ter seu pedaço de terrinha para morar junto de Joaninha e seus filhos, mas sua ingenuidade e crença nas pessoas acaba numa terrível tragédia.

Tião fica sabendo da história de que Zé Inocêncio teria feito um pacto com o demônio e tinha em suas posses, um diabinho na garrafa. Pois Tião vai até Zé Inocêncio e pede para que ele o ensine a ter seu próprio diabinho na garrafa. Zé Inocêncio inventa uma história absurda de que Tião deveria pegar uma galinha preta, dos pés ao bico, ainda virgem, não deixar ela ter relações, até que numa quarta de cinzas ela botar um ovo, que seria do demônio. Só que esse ovo deveria ser chocado debaixo do braço, no sovaco de Tião, por 40 dias e 40 noites. O pobre do Tião caiu nessa e ficou conhecido como Tião Galinha.

Tião chega a ser confrontado por Padre Lívio, que conta toda a verdade. Tião então vai até Zé Inocêncio tirar satisfação e acaba sendo mais uma vez iludibriado. Numa tentativa de corrigir seu erro, Zé Inocêncio coloca um ovo na gaiola da galinha… Porém, e por conta de uma carta que Rashid guardou, de Marianinha para Maria Santa, Zé Inocêncio acaba dando seu diabinho na garrafa para Tião, em troca da carta que deveria ser entregue para ele.

Tião não consegue encontrar a carta e Joaninha joga o diabinho da garrafa, destruindo o vasilhame. Tião ainda tenta voltar a trabalhar, mas é acusado de falar demais, quando ele começava a entender as injustiças da vida e questionava sobre das questões de posse e de trabalho. Muitas dessas questões foram estimuladas pelo próprio Padre Lívio, mas quem levava a bronca mesmo era Tião.

Ele tentou voltar a trabalhar, foi contratado por João Pedro, mas demitido pelo mesmo motivo, de falar demais. Ele começou a fazer discursos na terra de Teodoro, que encomendou uma surra. Tião foi humilhado, mas o que lhe fez chegar ao limite foi quando Mariana inventou que ele estava envolvido na tentativa de assassinato de Teodoro (proeza de Damião e Deocleciano). Na delegacia, Tião é mais uma vez humilhado, levando até um tapa na cara… Ele, então, pede um papel e uma caneta para um policial. Quando o safado do delegado, que deu o tapa na cara de Tião, volta para a cela de Tião, encontra ele enforcado. Tião se mata num fim terrível e dramático (me fez chorar demais).

Depois dos felizes para sempre

A novela dá sensação de que não precisava ter tantos capítulos, apesar da história ser bem amarrada. Algumas cenas são arrastadas, a direção se faz valer das cantadeiras e cenas do processo do cacau ao som de Lua Soberana (que vira a trilha dos 30 últimos capítulos da novela). Alguns enredos são arrastados também, como a história do Padre Lívio e seu questionamento perante ao sacerdócio, quando ele começa a sentir coisas por Joaninha, com o Tião ainda vivo.

Para tentar se afastar da tentação, Joaninha repete muitas vezes que Padre Lívio lembra Jesus (aquele branco de olhos claros, europeu). E pensar que era só o Padre Lívio cortar o cabelo e fazer a barba… Joaninha até tenta dar essa ideia, mas Lívio mantém o look, até mesmo quando larga de sua batina para, enfim, se jogar nos braços de Joaninha.

Teca: uma história injustiçada

Antes de ser acolhida por Buba, Teca (Paloma Duarte) vivia nas ruas com seus amigos: Neno (Cassiano Carneiro), Pitoco (Oberdan Júnior, também dublador do personagem Tintin) e Du. Du acaba sendo morto, Neno e Pitoco vão atrás de Teca, partindo de São Paulo, até Salvador. Chega a se aventar que um dos meninos poderia ser o filho de Morena reencarnado, história essa que é deixada de lado. Neno e Pitoco somem da trama, sem muita explicação, Morena sofre, porém Pitoco acaba retornando sozinho, sem explicar o que houve com Neno (apenas dizendo que ele foi para o mal caminho).

Teca acaba morando na fazenda de Zé Inocêncio, mesmo depois de parir aquele que não vinha a ser o filho de sangue de Zé Venâncio. Durante este período ela acaba tendo experiências sobrenaturais, tal qual Inácia. Ela chega a reproduzir o que houve com Marianinha. Teca se lembra de coisas que não viveu e chega a descobrir que foi Zé Inocêncio quem matou Belarmino. Por tantas “coincidências”, Teca acaba por descobrir que, na verdade, ela é filha do filho de Marianinha, fruto do estupro do Pai Boi, história essa, confirmada por Rashid, que tinha se casado com Marianinha, tiveram 6 filhos, sendo o primeiro, o fruto do estupro. Então, isso tornava a Teca sobrinha neta de Maria Santa, que deveria ser levado em conta na história, mas vira só mais um fato qualquer, quase que irrelevante.

Porém, sem mais nem menos, Teca, junto de seu amigo Tintin Pitoco, fogem sem qualquer explicação. Ela deixa seu filho sem ao menos deixar uma carta de despedida. Faltou um final mais digno para a personagem.

Demais personagens

Lu, vivida por Leila Lopes, é uma professora que chega para dar aulas para os filhos dos “agregados” da fazenda de Zé Inocêncio. Apesar de seus posicionamentos fortes (muitas das vezes close errado, principalmente nas relações alheias), Lu acaba perdendo força na história. Existe uma tentativa de romance com o João Pedro, que não funciona e com Zé Bento, que é pior ainda. Então, o autor resolve a história dela, colocando mais um personagem nos 45 do segundo tempo: surge o Rafael (Kadu Moliterno), um antigo amor de Lu, um sujeito estranho, sem muita definição do que faz da vida, hora parecendo um ator, hora um autor, hora qualquer coisa. Porém esse é o desfecho que Benedito encontrou para a professorinha, que chegou a ter o ideal de educar adultos, mas nada aconteceu.

O fofoqueiro da trama é o Seu Norberto (Nelson Xavier), dono de um bar de frente a casa de Jacutinga. Somente do meio pro final da trama é que ficamos sabendo que ele era apaixonado por Jacutinga, que simplesmente vai embora. O (até então) Padre Lívio chega com Lurdinha (Íris Nascimento), uma moça que acaba ajudando no bar de Norberto, mas acaba se apaixonando por Zinho Jupará.

Zé Inocêncio: a lenda

Antes de ser morto, Teodoro faz a, que seria, terceira tocaia de Zé Inocêncio, que tanto Inácia avisou. Ele contrata um outro matador para dar cabo ao Zé Inocêncio, que acaba falhando, então é Teodoro mesmo quem tenta matar Zé Inocêncio. 5 tiros, numa cena que poderia ser dramática, mas, por conta de um erro de continuação, acaba ficando engraçada, uma vez que parece que esqueceram de gravar o tiro que deixaria Zé Inocêncio paralítico. Sim, Zé Inocêncio acaba numa cadeira de rodas, mas tudo poderia ter se resolvido se os filhos tivessem comprado um triciclo pra ele andar pela fazenda, afinal, ele perde sua mobilidade.

Numa de suas aventuras, ele vai sozinho até o bar do Norberto, mas ao voltar, cai da cadeira e não consegue sair do chão. Uma forte tempestade deixa ele mais fragilizado, que acaba sendo levado por figurantes de volta para a fazenda.

João Pedro, ao ver seu pai em seu leito de morte, vai atrás do Jequitibá rei e retira o facão de seu pai, que, comido pelo tempo, ficou parecendo uma cruz. João Pedro acaba fincando seu próprio facão, num simbolismo de continuidade.

Zé Inocêncio morre nos braços de João Pedro, num abraço e um pedido de desculpas lindo. Após sua morte, ele encontra o seu verdadeiro amor, Maria Santa, que veio buscá-lo.

Vamos mudar o rumo dessa prosa?

Bruno Luperi, neto de Benedito Ruy Barbosa, fez muito sucesso ao fazer o remake de Pantanal, o que até fez sentido por não ter sido uma produção original da Globo, mas Renascer não precisava de remake. Apesar dos pontos complicados, datados pelo momento que a novela foi feita e exibida, ela terminou de uma forma magistral e com gás para uma sequência.

Vejam só:

  • Apesar do sumiço, Teca poderia voltar e reivindicar o seu filho José Inocêncio Neto, que sem relação direta de sangue, poderia se apaixonar por Maria Santa, filha de João Pedro e Sandra.
  • Ainda teria o filho de Damião e Eliana, que poderia fazer o caminho inverso do pai.
  • Tem ainda o filho de Zé Bento e Ritinha, que poderia fazer o triângulo amoroso, apesar de primo de Maria Santa… (Se um pai “rouba” uma mulher do seu filho, o que tem se forem primos?)
  • Como João Pedro fincou seu facão no Jequitibá rei, ele daria continuidade ao legado de Zé Inocêncio.

Agora não sei se o autor nepobaby teria essa carga pra criar outra história, e não viver de remake do avô. Essa nova versão de Renascer já está cheia de polêmicas por seu revisionismo.

Cês querem saber de uma coisa?!?

É inegável a qualidade da novela e de algumas tramas, bem como atuações.

Se você reparar, o apartamento que Eliana vivia com Zé Venâncio é bem similar ao apartamento de Diná, de A Viagem, reutilizaram os cenários, uma vez que A Viagem foi realizada um ano após Renascer.

Mais uma vez louvo o trabalho de Regina Dourado e Roberto Bonfim, que me tiraram, por várias vezes sorrisos de meu rosto, assim como emoções diversas, mas sempre positivas.

Um grande trabalho, também, da incrível Chica Xavier, que fez brilhantemente a Inácia.

Adriana Esteves acabou se afastando da teledramaturgia, pois sofreu muito hate pelo seu personagem. Antes das redes sociais, as pessoas eram bem passionais com novelas e não sabiam distinguir o que era o ator do que era o personagem.

Numa possível sequência, infelizmente a personagem Morena não poderia ser reprisada, pois Regina Dourado faleceu em 2012, aos 59 anos. Assim como Inácia, interpretada por Chica Xavier, que morreu em 2020 aos 88 anos.

Pra encher linguiça, eles inventaram uma fazenda de boi, em Goiás, que Zé Inocêncio comprou de Aurora (Mara Carvalho), mas depois não rendeu mais e ele vendeu.

É curioso como as novelas influenciam na cultura e nos costumes. Zé Inocêncio é antipolítica, não gosta do assunto e acha que todo político não presta.

Falecidos

Além das atrizes mencionadas acima, muitos atores e atrizes já faleceram:

  • Leila Lopes
  • Luiz Carlos Arutin
  • Nelson Xavier
  • Jofre Soares
  • José Wilker
  • Cecil Thiré
  • Grande Otelo
[Repost] Renascer 1993: Uma novela épica (e o texto também, tão longo quanto a novela)

[Repost] A Viagem: (25) Trinta e poucos anos da novela que marcou época

Este artigo foi publicado originalmente no Revue (2019), antiga newsletter do Twitter, mas o Kiko do foguete fez o favor de descontinuar o serviço. Depois passou pelo Tumbrl (2024), mas só acessava quem tinha conta lá, então está aqui, agora.

Fatos, curiosidades e minhas opiniões sobre a trama de Ivani Ribeiro

Reprodução TV Globo – 1994

Em 1994, particularmente em abril, mais especificamente dia 11, estreava na TV Globo a novela de espiritismo mais freestyle da TV brasileira.

Produzida a toque de caixa por conta do atraso de uma novela que seria exibida às 19h, A Viagem começou com uma frente de 20 capítulos, o que explica os cenários questionáveis e sucessivos erros de produção, direção e texto.

Reprodução Observatório da TV UOL

O mais curioso é que a novela não é original, mas adaptação da novela homônima que foi exibida em 1975 pela TV Tupi que por sinal é da mesma autora, Ivani Ribeiro:

Abertura da Novela ”A Viagem” Tv Tupi 1975 CEDOC Tv Tupi

Contexto: Anos 90

Os anos 90 era uma coisa de doido. Uma república recém democratizada que tinha sua cultura frequentemente censurada, fez dos anos 90 sua década mais louca no Brasil.

De apresentadoras infantis com roupas minúsculas…

… A sushi erótico:

E no meio disso tudo teve a novela A Viagem, que hoje não seria recomendada pra menores de 12 anos e olha lá.

Enredo e início da novela

Logo de início marca o mote principal da trama: Alexandre (Guilherme Fontes), um badboy coxinha vai assaltar uma repartição pública e acaba matando Waldemiro (Nildo Parente) que apareceu no mesmo momento. Pra quem pouco se lembra da obra (como eu que tinha poucas lembranças) acha que já ali o Alexandre seria morto, mas ele fica foragido por uns capítulos.

As cenas de ação dos primeiros capítulos são intensas até, mas deixam a desejar. Alexandre então tenta se esconder na casa de sua mãe, mas seu irmão Raul (Miguel Falabella) – que ao decorrer da novela se mostra um dos personagens mais escrotos da história – e o seu cunhado Téo (Maurício Mattar) acabam denunciando o rebelde sem causa. Alexandre fica então indo e voltando da prisão por várias tentativas de fuga, até cair num presídio e de lá só saindo morto (sua morte, por sinal, é muito mal feita, assim como outras ao decorrer da trama).

O primeiro grande relacionamento abusivo que se exibe é o de Alexandre e Lisa (Andréa Beltrão), que poderia ser melhor escrito, especialmente quando ela ia visitá-lo na prisão e ele chegava a abusar dela. As visitas do irmão e cunhado eram péssimas também, com diálogos cafonas e repetições de cenas (que é uma das características da trama que eu trato mais pra frente).

Dinah (Christiane Torloni), sua irmã é a que mais passa a mão na cabeça de Alexandre. Um relacionamento estranho, onde ela relativiza as mortes que seu irmão causou (sim, no plural, pois em um dos capítulos é dito que Alexandre também causou a morte de uma menina que depois não é mais informado, nem mesmo no seu julgamento).

Otávio (Antônio Fagundes) é um advogado que acaba trabalhando como promotor no caso do assassinato do funcionário da repartição pública que era amigo dele. Ele quem ajuda na sentença de condenação do Alexandre. Curioso que na novela Otávio diz que vai cuidar dos filhos do morto, fica uns capítulos com as crianças e depois elas não aparecem mais.

Tempos depois de sua condenação, Alexandre se suicida, mas a cena é tão corrida que você fica meio perdido. Ele aproveita uma rebelião pra ir até a enfermaria e causa uma overdose de remédios da farmácia.

O médico médium Alberto (Cláudio Cavalcanti) transita em todos os núcleos, nem parece médico, pois até espíritas usam a vestimenta branca, então meio que dá elas por elas. Não fosse o estetoscópio você não diria que ele era médico. Muitas cenas de seus monólogos mediúnicos são de texto fraco, ainda que na época tenha ajudado muitas pessoas.

Aliás, por se tratar de uma novela que fala de vida após a morte e trazer parte dos preceitos do espiritismo, você até se engana que a novela retrata de forma fiel à doutrina, porém falha miseravelmente.

Mais pra segunda parte da novela, quando o casal principal Otávio e Dinah estão mortos, eles são ensinados pelos espíritos elevados sobre astrologia. Eu até cheguei a fazer uma pesquisa superficial e não encontrei nada a favor da astrologia dentro do espiritismo.

Por falar nas mortes de Otávio e Dinah, as cenas foram também anticlímax total. O primeiro morreu de acidente de carro, promovido por Alexandre que possuiu (ou influenciou) o motorista do caminhão que bateu no carro de Otávio. Muito antes disso acontecer, Otávio sabia que iria morrer de uma doença misteriosa, mas Alexandre acabou por antecipar a tragédia.

Os efeitos especiais da novela poderiam ser considerados defeitos de tão ruins. Claro que a época não ajudava, pois a Globo ainda engatinhava nos efeitos especiais, dignos dos episódios de Chaves (que foram gravados na década de 70).

Otávio mesmo, quando morreu, aparecia deitado nitidamente num fundo verde, saindo da cena do acidente e indo para um campo cheio de flores. Eles poderiam ter feito um daqueles efeitos de sobreposição de imagem onde parece que a alma sai do corpo pra daí sim entrar no fundo verde.

Já Dinah morreu no abraço de sua sobrinha Bia (Fernanda Rodrigues), depois de encontrar a menina que havia sumido (durante este período demais coisas acontecem que esta trama fica em segundo plano, fazendo até com que pareça que eles tinham esquecido da menina). Aqui a direção perdeu uma oportunidade de ouro de mostrar o desfalecimento de Dinah no mundo carnal e acordar assustado em Nosso Lar (termo usado por Chico Xavier pra designar o Paraíso cristão).

Tramas paralelas

Temos ainda as tramas em paralelo, como a da Carmem (Suzy Rêgo) e o Mascarado (Breno Moroni) que por vezes é confundido por pessoas ruins, mulheres e homossexual, até descobrirem que ele era alguém do passado dela que tinha sumido quando iriam se casar. No final da trama ele se mostra uma pessoa ruim mesmo, pois acabou por abandonar ela mais uma vez, pois tinha problemas com sua aparência por conta do acidente grave que levou seus pais.

Carmem é amiga de Lisa, que foi namorada do Alexandre, que depois se apaixonou pelo Téo formando outro casal abusivo e chato. Téo sofria influência do Alexandre que o possuía, mas ninguém desconfiava pelas palavras que o Téo dizia que algo de errado ele tinha. Téo acabou sendo hospitalizado e tratado com problemas mentais, o que eu fico imaginando o quão fora prejudicial pra quem na vida real tinha problemas mentais na época e sofriam preconceito, inclusive os que sofrem esquizofrenia.

Reprodução UOL

Personagens femininas no geral em A Viagem sofrem muito, de machismo a coisas bem sinistras como abuso sexual, que muitas vezes foi tratado com certo romantismo. Como foi o caso do Zeca (Irving São Paulo) que abusou e engravidou a personagem Sofia (Roberta Índio Brasil), uma moça recatada e do lar que era menor de idade (16 anos). Mas também tem o relacionamento de Tato (Felipe Martins), filho de Otávio, com Bia, filha de Estela (Lucinha Lins), irmã de Dinah.

Bia tinha apenas 14 ANOS e namora com o Tato que tinha por volta dos 20 ANOS. E tudo é naturalizado na novela, de novo, anos 90.

Teve uma cena terrível também abuso sexual (que não deveria ter acontecido) onde Estela, meio que sequestrada pelo ex Ismael (Jonas Bloch), é abusada sexualmente por ele. Cena horrível, que mesmo não mostrando o ato em si, já dá um nó no estômago. Lembrando, anos 90, a novela passava às 19h e tinha sido programada para passar às 18h.

Além de cenas de crianças tomando bebidas alcoólicas na maior naturalidade, machismo, e só não rola racismo direto pois não personagens negros principais na trama, mas exerciam papéis que reforçavam o racismo estrutural (entre presos e empregados domésticos).

Os idosos eram os piores personagens de A Viagem, até parece que as autoras tinham algo contra os idosos, pois todos eram chatos. No final da novela mesmo, a personagem Vovó (Selma Salmir) vivia sendo trancada no armário, que até acaba sendo simbólico, pois ela era bem homofóbica com seu neto, o Padilha (Renato Rabelo) que no começo parecia que seria um personagem gay, mas voltaram atrás no meio da novela e no final fica dúbio quando ele apresenta “seu amigo” modelo.

Uma das características de A Viagem é ter várias cenas que nunca existiram, nunca foram filmadas, mas são narradas pelos personagens, algumas que até pareciam importantes terem sido filmadas.

Existe o curioso do caso da personagem que nem existiu e morreu, como a esposa de Okida (Carlos Takeshi) que ganhou conhecimento do público do meio pro final da novela, mas ela morreu num acidente com o irmão do Okida, Kazuo (David Y. W. Pond), sem muitas explicações. Okida também acabou ganhando um filho, o Nori.

Os erros de continuidade são intermináveis, o que mais foi simbólico pra mim foram os que aconteceram repetidamente, como quando Carmem conta que descobriu a identidade do mascarado para o pessoal da locadora de vídeos e em capítulos posteriores a cena se repete como se não tivesse acontecido.

É possível que a audiência tenha interferido demais na novela, pois alguns personagens se perdem no caminho. E se torna mais estranho, pois a Globo liderava de longe, apesar de ser zebra (uma novela que nem estava programada para o horário e foi feita às pressas) a novela batia 50 pontos de audiência. Eu cheguei a achar que o sucesso de Castelo Rá Tim Bum na mesma época tinha incomodado a novela, tanto que no final o cabelo da Christiane Torloni parece idêntico do Nino do castelo, horrível.

Trilha Sonora

A trilha sonora é um caso à parte. Tem a trilha de abertura que é icônica de Roupa Nova, mas que você acaba enjoando. Tem o caso da música “I’m your puppet” de Elton John e Paul Young que é usada pelo casal Lisa e Téo, que fica bem esquisita se você perceber que a letra diz e relacionar com o personagem Téo:

Reprodução Letras

Se você maratonar a novela, corre o risco de desistir pelo excesso de uso das trilhas, mas se passar da metade acaba se acostumando. Curioso mesmo é a música “Mais uma de Amor (geme geme)” da Blitz que era adaptada para todas as situações, sejam elas drama, comédia, romance, tensão…

Reprodução Globoplay

O arrependimento de Alexandre, por exemplo, que já no Nosso Lar pediu para ver Waldomiro e pedir perdão por ter o matado. A cena não aconteceu (como muitas outras), sendo somente narrada por outros personagens. Alexandre também não se desculpou com o Otávio, nem mesmo uma cena de abraço que poderia simbolizar esta evolução. Alexandre ainda teve a possibilidade de escolher reencarnar e opta por voltar pro mesmo núcleo.

Ainda que muitas vezes seja questionável, as almas de Otávio e Dinah aparentemente eram gêmeas, o que é uma pena eles terem desperdiçado a chance de ter feito o casamento dos dois em vida, que faria muita diferença no enredo, mesmo que sem fugir da história final.

Falecidos

Muitos dos atores que fizeram A Viagem já fizeram realmente A Viagem, mas o caso que mais me chamou a atenção foi de Chris Pitsch (Bárbara na novela), que faleceu no ano seguinte em decorrência de problemas no coração. Ela tinha apenas 24 anos.

Demais atores que já faleceram (atualização até 2021):

  • Tânia Scher
  • Claudio Cavalcanti
  • Irving São Paulo
  • John Herbert
  • Mara Manzan
  • Maria Alves
  • Nilton Parente
  • Leina Krespi 
  • Yara Cortes
  • Selma Salmir
  • Caio Junqueira
  • Nair Bello
  • Eduardo Galvão (vítima de COVID)
  • Carlos Kroeber
  • Cláudio Corrêa e Castro
  • Gésio Amadeu (vítima de COVID)
  • Leina Krespi
  • Antônio Pompêo
  • Ivan Cândido
  • Rejane Goulart
  • Lafayette Galvão
  • Cláudio Mamberti 

A novela tem MUITAS falhas, mas ainda assim marcou época e história na TV brasileira.

Porém merecia um reboot de respeito, corrigindo muitos erros e fazendo jus à história tão mal contada, mas que tem potencial.

Quem sabe quando completar 30 anos?

[Até o momento dessa repostagem, não há nenhuma confirmação de um remake]

[Repost] A Viagem: (25) Trinta e poucos anos da novela que marcou época

A crise nas novelas globais

Foi-se o tempo em que a globo era sinônimo de novela. Hoje temos as maiores emissoras do Brasil investindo pesado nas produções e surpreendendo a audiência (como foi o caso de sucesso dOs Dez Mandamentos da record).
A globo ainda é sinônimo de qualidade, e até por isso vem sendo duramente criticada por suas últimas produções, em especial as da terceira faixa nobre (que antes era oito, depois nove, agora está quase às dez).
Mas há de se convir que tem muita novela boa sendo feita, especialmente a da primeira faixa nobre, as famosas novelas das seis.
Apesar do horário não permitir vários assuntos, as novelas vem surpreendendo pela criatividade, textos primorosos, temas diversos… Enfim, as novelas que a globo vem exibindo no horário das seis são as melhores pedidas.
As novelas da segunda faixa nobre tem sua audiência, mas vem pecando nas histórias, as edições confusas (como a última I love Paraisópolis). A faixa do meio mais parece um laboratório de experimentos do que de uma faixa que deveria ser importante.
As novelas da terceira faixa vem sendo um desastre total. Apesar da indicação ao Emmy, Império não deveria receber qualquer prêmio pois a novela foi ruim, modificada, tudo diferente da primeira fase.
Mas enfim, não fui eu que escolhi então deixo para “quem entende”.
Nem sempre sucesso é sinônimo de qualidade, está aí Os Dez Mandamentos que não me mente. Para uma produção de novela a abertura do mar vermelho foi muito bem feita, mas de resto, sobretudo o elenco fraco e texto faz com que a novela não seja a melhor produção.

A crise nas novelas globais