Um dos primeiros aspectos mais importantes, e estranhos, é que a Globoplay não exibiu, em nenhum momento a mensagem, antes de cada capítulo, que: “Essa obra pode conter representações negativas e estereótipos da época em que foi realizada”. Tudo bem que nesses quase 37 anos desde sua estreia, muita coisa não mudou no Brasil, mas não deixa de ser curiosa essa linha editorial.
Outro problema é que a novela sofreu aquela esticada da imagem, passando do original 4:3 para 16:9. Eu mexi na configuração da TV para manter o aspecto 4:3.


“Não me convidaram
Pra esta festa pobre”
A história principal é sobre a dualidade entre o que poderia ser tido como certo ou errado, bem ou mal, honestidade ou falcatruas, quase que num binarismo, mas bem elaborado.
Regina Duarte começa canastrona, com uma atuação exagerada. Sua personagem Raquel Gomes Accioli, passa da mãe sofredora para a mulher histérica, com muita facilidade. Ao decorrer da trama, ou você se acostuma com a atuação da atriz, ou ela melhora de fato (isso, eu acho, é uma questão de ponto de vista).

Raquel trabalhava como guia turístico nas Cataratas de Foz do Iguaçu. Ela era casada com Rubens (Daniel Filho), um artista puro – sem dinheiro, vivendo de sua arte. Eles acabam se separando por conta da vida boêmia de Rubens.
Depois da separação, ela vai morar com seu pai, Salvador (Sebastião Vasconcelos) e sua filha, a vilanesca Maria de Fátima (que mais parece uma continuação da personagem Marisa, interpretada também pela Glória Pires em Dancin’ Days, só que numa versão bem mais pobre e alpinista social). Fátima entende que vive no capitalismo, mas não sabe lidar. Ela não tem norte, mas quer chegar ao topo, sem esforço, só contatos. Já Raquel, se esforça muito e acredita que vai crescer na vida (seja lá o que isso signifique).
Capítulo 10 marcado por um diálogo de Raquel e Fátima. Regina Duarte continua caricata, mas até que entregou texto.
Fátima começa sua saga pela fortuna, quando se encontra com César (Carlos Alberto Riccelli) um modelo decadente, viciado e picareta que seduz ela para uma vida de glamour de modelo.
Fátima ainda conta com a sorte do avô deixar a casa no nome dela. O avô morre, Fátima vende a casa e vai para o Rio de Janeiro, indo atrás de Rubens, que tem um apartamento no Rio. Quando Raquel chega na casa vendida e quase vazia, é despejada sem querer acreditar no que aconteceu ali.
Raquel acaba indo atrás de sua filha, achando que a garota foi corrompida por César e induzida a ir para o Rio. A trama, então, se desloca para o Rio de Janeiro.
Enquanto Fátima gasta o dinheiro da venda da casa com luxo e ostentação, Raquel chega ao Rio com uma mala e pouco dinheiro. Logo Raquel é assaltada e, no meio desse caos, ela conhece Ivan, personagem de Antônio Fagundes (numa versão mais pobre e menos descolada de Cacá, de Dancin’ Days. A reprise fica ainda mais evidente porque rola a dobradinha Antônio Fagundes e Cláudio Correia e Castro, que também faz o papel de seu pai, agora chamado de Bartolomeu).
O trambiqueiro César, mora no Rio de Janeiro num apartamento chique, com seu colega Franklin (Paulo César Grande). Só que este apartamento é de alguém que nem conhecia eles.
Depois de descobrir a falcatrua dos dois, Doutor Bernardo (Marcos Wainberg), o decorador, despeja eles da casa, mas acaba convidando Franklin a ir embora com ele. Apesar duma participação bem minúscula, Dr Bernardo foi o primeiro gay da novela.
Núcleo popular da novela
Por se tratar de uma novela de antagonismos, as diferenças sociais também dividem os personagens que são ricos, dos que são populares, tendo uma vida mais humilde.
Na vila que Raquel acaba indo morar, vive Poliana, apelido de Audálio (Pedro Paulo Rangel), e Aldeíde (Lília Cabral), que acolhem Raquel. São vizinhos de Consuelo (Rosane Gofman), tia de André (Marcello Novaes) e Daniela (Paula Lavigne). Consuelo vive também com o irmão, Jarbas (Stephan Nercessian).
Lucimar (avó da atriz que é neta da atriz Maria Gladys) é uma personagem importante para a trama, mas existem alguns personagem com menos relevância, como Vasco (Paulo Rezende) que participa de cenas, mas não exerce função primordial na trama.
E temos Gildo (Fernando Almeida), um dos meninos que a Raquel explorou. Preto, ele sofre racismo recreativo, é taxado por ser da favela, e acaba cometendo “pequenos crimes” por sobrevivência.
Núcleo classe média
Ainda temos um terceiro núcleo que acaba transitando entre o núcleo dos ricos e dos populares:
Solange Duprat (Lídia Brondi) produtora de moda que começa como namorada de Afonso, Sardinha (Otávio Müller) amigo e companheiro de apartamento da Solange, Fernanda (Flávia Monteiro) filha de Eunice (Íris Bruzzi), esposa de Bartolomeu; e Leila (Cássia Kis) ex esposa de Ivan e mãe de Bruno (Danton Mello), que acabam indo morar na casa dos ex-sogros.
Renato (Adriano Reys) dono da revista Tomorrow, uma revista focada num público que quer se alienar, quase como uma revista de moda, da atualidade. Ele é primo de Marco Aurélio.
Luciano (Jairo Lourenço) começa na trama como chefe de Ivan no telex, mas acaba virando assistente do mesmo, quando Ivan vira diretor da TCA.
Deise (Nara de Abreu), empregada da casa de Marco Aurélio e Freitas (João Camargo), o capacho de Marco Aurélio.
Outros personagens vão aparecendo ao longo da trama: Íris, que acaba substituindo Aldeíde na TCA, tem um dos piores enredos focados em sua virgindade; Ruth (Zilka Salaberry) que tem uma importante função na trama; Mário Sérgio (Marcos Palmeira) que começa como um fotógrafo freelancer e se torna editor da Tomorrow.
“Não me ofereceram
Nem um cigarro”
Nunca tinha visto uma novela, até então, com muitos fumantes. Muitos mesmo. São raras as cenas que as pessoas não estão fumando. Até achei que teria propaganda de cigarro, mas não teve.
Mas isso não tira o fato de que a novela foi um sucesso comercial: cerveja, vinho, refrigerante, marca de roupas, fogão, loja de alfaiataria, molho de tomate, temperos, sopas, passa roupas, Atari, gradiente, banco, marca de doces e até empreiteira de imóveis…
“Não me elegeram
Chefe de nada”
Raquel tenta prosperar, mas no início ela só consegue frustração, até que Bartolomeu diz para ela pensar naquilo que ela sabe fazer e focar nisso. Dito e feito: como uma boa cozinheira, ela começa a vender sanduíches na praia, e depois, com o aumento das vendas, faz algo que hoje é bem questionável: usa do trabalho infantil para vender seus sanduíches.
Raquel sonha pequeno, mas cresce até de forma rápida. Progredindo no que faz, acaba pesando em sua consciência sobre se sentir “capitalista”, como também pesou a consciência sobre explorar as crianças. Raquel busca uma pureza que é incompatível com a realidade capitalista. Fala tanto em “sangue de Jesus tem poder” que até parece que esse sangue talhou, pois só dá problema e pouca solução. Não demora muito, ela é notada pelo casal Cecília (Lala Deheinzelin) e Laís (Cristina Prochaska). Cecília é irmã de Marco Aurélio, personagem de Reginaldo Faria. Aos poucos vamos conhecendo o núcleo rico da novela: a Família Roitman.

Mas, antes disso, é preciso falar sobre Ivan Meirelles. Com um pouco mais de escrúpulos que Fátima, porém ainda ambicioso, o galã perde seu emprego de alto escalão, mas vai aos poucos galgando seu espaço na TCA. Começando como operador de telex, ele vai se infiltrando de maneira sorrateira e perspicaz, inclusive jogando seu charme para Aldeíde e Consuelo, secretárias de Marco Aurélio, para ter acesso às informações sigilosas da empresa. Nesse meio tempo ele acaba indo morar com Rubens, ex-marido de Raquel.
Ele se apaixona por Raquel, apesar disso, o casal que tem menos química que o cabelo de Thiago. Ainda assim, o casal chega até ter flashback, logo no começo da novela, no capítulo 15.

Família Roitman
Além da Cecília, irmã de Marco Aurélio, temos Heleninha Roitman (Renata Sorrah), ex-mulher de Marco Aurélio e mãe de Thiago (Fábio Villa Verde).
Heleninha é atormentada pelo passado e por seu alcoolismo. Ela chega a passar por uma clínica de reabilitação, mas não consegue sair do fundo do poço. Ultra protegida por sua família, especialmente por Celina (Nathalia Timberg), que acaba exercendo o papel de mãe para Heleninha e seu irmão, Afonso (Cássio Gabus Mendes), enquanto Odete Roitman (Beatriz Segall) mora em Paris. Essa ultra proteção custa caro, pois Heleninha acaba não amadurecendo para entender seus problemas e poder enfrentá-los. Marco Aurélio, seu ex marido, é vice-presidente da TCA e vive dando golpes na empresa, abusando de seu poder e status. Thiago, filho de Heleninha e Marco Aurélio, é perseguido pelo pai por ser mais sensível e ter um gosto mais requintado. Tanto com Thiago, como com Cecília, Marco Aurélio tece comentários bem homofóbicos.
Mas se engana quem acha que a maior vilã da novela aparece de imediato. No capítulo 28, aparecem apenas partes do rosto dela, e só nessa cena ela fere uns 50 direitos humanos.
Somente, então, no capítulo 30 ela entra de vez na trama.
Pobres ricos que sofrem…
Apesar de ser uma novela, existiram vários capítulos em que pareciam episódios com temáticas.
O capítulo 17 é inteiro sobre conflito de classes.
A culpa capitalista: Um dos piores discursos acaba sendo de Heleninha para seu filho, Thiago, sobre aprender a viver sendo rico, conviver com esse fardo e simplesmente não fazer nada. Isso porque ela ainda lista todas as mazelas do mundo (incluindo a fome e o nordeste – de forma pejorativa mesmo, como se a região fosse um problema, ignorando fatos históricos).
“Podre de rico” de repente não é uma frase qualquer. Aqui, em Vale Tudo, ela faz total sentido.
Preconceito recreativo
Aliás, apesar do texto de Gilberto Braga parecer mais “moderno”, ele acaba caindo em vários problemas como xingamentos e preconceitos. Palavras como “bicha, viado, sapatona“ são ditas com certa frequência. Marco Aurélio chega a dizer que o filho Thiago é “doente” e tenta “consertar” isso no filho dele.
Quando Thiago começa a ter uma vida mais social, fazendo natação para tratar de sua asma, ele conhece André e começa ter uma amizade de levar o garoto para a casa. Marco Aurélio é tão neurótico que acha que eles estão tendo um caso. Marco Aurélio acusa André de ter um romance com Thiago, dizendo para o filho que preferia ele morto (discurso conhecido, né?). Jarbas chega a questionar André e diz que talvez aceitaria se ele fosse gay. Thiago ainda chega a dizer para Marco Aurélio que ele é quem pode ter “o problema” (ser gay).
“É bicha falando como se fosse gente”, diz Consuelo num surto de moralismo.
Além dos casos de homofobia, a novela também carrega no esteriótipo da mulher preta e Zeni Pereira acaba fazendo uma personagem de empregada doméstica, Maria José, ou Mazé, que mora na casa dos patrões, aparentemente pouco letrada e num tom que chega a ser desconfortável em alguns momentos. Prefiro acreditar que o autor quis fazer uma referência à personagem de Hattie McDaniel, “Mamãe” de “…E o vento levou”.

Diversidade na área
Há cenas em que se fala em “tendência” quando se trata de gays… Era época da pandemia de HIV e Heleninha chega a soltar a frase: “De câncer, fumante também morre”. Lembrando que de início, a AIDS/HIV era tratada como um câncer.
Apesar das constantes homofobias na novela (e fora dela), a novela é recheada de personagens LGBTQs: Dr Bernardo, de certa forma Franklin, Cecília e Laís e sua “amizade“, além do icônico mordomo Eugênio.

Eugênio trabalha na casa de Celina e é totalmente imerso na dinâmica de hierarquia social, sempre querendo separar empregados e patrões. Existe também uma personagem que é mencionada, mas não aparece… E eu não sei se foi má vontade ou má fé, mas chamavam a personagem de “O Shirley“.
Ainda há uma questão: Thiago e Fernanda eram demissexuais? Pois eles deram muito mais valor para coisas além do sexo, acontecendo muito depois. Aliás, Ivan acabou sendo mentor de Thiago, mas o texto tem algumas coisas complicadas, principalmente com relação à diversidade, o que chama atenção, pois o escritor é gay e era casado. Por vezes o Ivan repetiu ser um “problema” a diversidade sexual.
Laís: a resistência!

Apesar de tantos personagens da diversidade, a novela acabou sofrendo críticas por conta do casal Cecília e Laís. Não sei se isso influenciou na tragédia que acaba acontecendo no meio da trama, mas o personagem de Cristina Prochaska resiste até o último capítulo da novela, falando sobre preconceito (ainda que de forma velada) e até conseguindo um par romântico nos últimos capítulos. Aliás, a cena de Eugênio e Lais é bem bonita, apesar de limitada pelo preconceito. Leila foi a única a falar em “companheira“. Numa novela de 1988, recém saídos de uma ditadura, esse é um marco e tanto.
As malas, a morte e o desvio
Um dos grandes momentos da trama se dá quando, quase todos os personagens da trama, vão para Búzios:
Raquel, convidada por Cecília e Lais para sua pousada, numa oferta de emprego; Rubens vai tocar no bar da pousada e acaba encontrando Renato, para quem tinha mentido ser rico, mesmo sendo desmascarado pelo amigo, Rubens recebe ajuda de Renato para fazer a tão sonhada viagem para Nova York, inclusive dando uma mala chique para Rubinho viajar. Dias antes, Renato deu uma mala parecida com a que deu para Rubens, para seu primo, Marco Aurélio.
Até existe uma sequência estranhíssima que mistura imagens do personagem Rubens com o cantor e compositor Antônio Carlos Jobim…

Boa parte da família Roitman também foi para Búzios, inclusive Marco Aurélio que paga uma mulher para tirar a virgindade de Thiago, o que acaba não acontecendo, pois o rapaz broxa na hora.
Thiago acaba fugindo e Heleninha tenta beber. Marco Aurélio desiste de dirigir o próprio avião e deixa a cargo da namorada, Cláudia (Tereza Mascarenhas), em entregar a mala com 800 mil dólares para um contato no estrangeiro.
Nessa viagem iriam Rubens e Cláudia. Ao colocar o endereço na tag da mala, Rubens começa a passar mal (A cena toda ao som de “New York, New York”, de Frank Sinatra). Cláudia chega a reanimá-lo, ele é hospitalizado, mas acaba morrendo, segurando o seu passaporte.
Com todo esse caos, César acaba indo viajar para o Rio de Janeiro com todas as malas, de “carona”, inclusive junto das malas gêmeas, sendo uma recheada de dinheiro e outra com coisas de um simples músico. Uma ele rouba e deixa outra.
A novela explora bem esse primeiro suspense, afinal, quem ficou com a mala de dinheiro? A mala que tinha a tag que Rubens preencheu, estava com o endereço do apartamento que ele dividia com Ivan. Depois de capítulos, descobrimos que a mala com dinheiro ficou com a tag de Rubens.
Freitas, a mando de Marco Aurélio, ainda chegou revistar essa mala, mas o dinheiro estava escondido de forma que o Freitas não percebeu.
Nesse meio tempo Ivan se enrosca com seu salário e acaba gastando antes de receber; Bartolomeu, seu pai, empresta dinheiro ao amigo; Poliana, já companheiro de Raquel num restaurante, usa dinheiro de agiota. E tudo poderia ser resolvido se eles abrissem a mala, que Raquel insistia em dar para Fátima, que era a herdeira legítima de Rubens.
Ivan acaba falando que Raquel tem “Honestidade patológica”.
Vilãs e vilão
O que define um vilão? Qual a linha da vilanice? Pode um vilão se regenerar? E quando não? Existe uma real vilã de Vale Tudo? Humanizar vilões, é interessante?
Marco Aurélio: Um mulherengo safado, vice-presidente da TCA, vive desviando o dinheiro, tem falas homofóbicas, xenofóbicas e eugenistas. Humilha qualquer um que ele ache que seja inferior a ele. Deu o maior golpe na TCA e saiu ileso. Se enfiou na política de uma cidade minúscula por corrupção. Chegou a ser seduzido por Fátima, mas acaba usando ela e tenta incriminá-la da morte de Odete.
Maria de Fátima: Ela é capaz de tudo para se dar bem. Ela vendeu a casa de herança do avô; despejou a mãe da casa; não foi ao enterro do pai, pois poderia desmascarar sua verdadeira origem; se aproximou de Solange por interesse, destruiu o relacionamento que a produtora tinha com Afonso, armando até flagrantes com César, seu comparsa. Fátima traiu a amiga Solange e se casou com Afonso. Foi morar em Paris com o marido e o amante. Voltou para o Brasil com o marido e o amante. Ela ainda chantageou Marco Aurélio; se aliou com Odete para destruir o romance da mãe com Ivan; tentou dar o golpe da barriga, mas o filho não era de Afonso. Tentou abortar o filho se jogando da escadaria do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Quando descobriu que Solange também estava grávida, armou um acidente de trânsito, na tentativa de fazer a franjudinha perder o bebê, mas pela gravidade do acidente, Solange poderia ter até morrido, afinal, naquela época o cinto era item de decoração e o carro tinha capotado… Mas o plano deu errado e a gata saiu sem escoriações (novela, né?).

Fátima ainda tentou roubar uma joia de Celina, mas acaba deixando com que a empregada Marina seja culpada pelo crime. E ainda vendeu o filho, depois recuperado pela Raquel.
Odete Roitman: Manipuladora da família, controladora, humilha pessoas que acha não serem dignas, acaba perseguindo Raquel, pois ficou na obsessão de que a filha, Heleninha, tinha que ficar com Ivan. Tenta até mesmo criar um crime contra Raquel que poderia matar muitas pessoas por envenenamento. Corrupta, não se furtou quando soube do golpe de Marco Aurélio na cidade fictícia do nordeste. Homofóbica, xenófoba, eugenista, elitista, racista. Se alia com Fátima para forçar que o filho Afonso more definitivamente em Paris. Viciada em gigolôs, ela não obtém muito sucesso nessa área.
“80 milhões de baderneiros só podem ser governados por chicote.”
Os segredos de Odete:
Spoiler!
O assassinato de Leonardo, o filho mais velho de Odete:
Numa casa de verão, em Angra, estavam Heleninha, Marco Aurélio, Thiago ainda criança, a empregada Ruth, Odete e seu marido já debilitado.
Ainda casados, Heleninha desconfiava duma traição de Marco Aurélio. Eles brigam em Angra e ele sai de carro. Heleninha quis ir atrás, já bêbada.
A família também tinha dois apartamentos em Porto Galo, perto de Angra. Num dos apartamentos morava Leonardo, irmão mais velho de Heleninha e Afonso.
Ruth, a empregada, foi de carro com Heleninha. Chegando lá, Ruth chamou Leonardo e foram para o outro apartamento, onde Heleninha desconfiava que estava Marco Aurélio e sua suposta amante, mas eles acabaram flagrando mesmo a Odete com um amante, amigo de Leonardo.
Leonardo, enfurecido, quis contar tudo para o pai. O irmão mais velho pegou todos e foram para o carro, de volta para Angra. No meio do caminho, Leonardo deixou o veículo nas mãos da Odete, enquanto tentava segurar Heleninha, que estava no banco de trás, descontrolada.
Acontece, então um acidente. Leonardo é o mais ferido de todos. Heleninha se desespera.
Um incêndio na casa de Angra começa. Odete nervosa e fumando muito, derruba o cigarro, causando destruição na casa e quase vitimando o neto, Thiago.
Odete agiu rápido e aproveitou que Helena estava muito fragilizada e colocou a culpa de tudo nela, inclusive da morte de Leonardo. Por isso, Helena acaba sendo internada e perde a guarda do filho.
Odete ainda suborna a empregada Ruth, dando dinheiro para ela fugir do país e não voltar.
Exame falso:
Afonso chegou a engravidar uma funcionária de uma fazenda deles, e ela queria dinheiro. Odete, então, fez de tudo para tirar a responsabilidade de Afonso, inclusive o exame falso de fertilidade.
Quem matou Odete Roitman?
Na verdade a pergunta deveria ser “Quem não queria matar Odete Roitman?”, pois é impossível não desejar a morte dela.
Capítulos-chave da história
Contém spoilers
Capítulos 01 e 02: Início da trama, condensados em um único capítulo
Capítulo 10: o diálogo de Raquel e Fátima.
Capítulo 17: conflito de classes
Capítulo 18: prenúncio de uma morte
Capítulo 21: desvalorização do trabalho artístico
Capítulo 28 e 29: Odete aparece
Capítulo 30: Odete entra em cena de vez
Capítulo 34: Odete mostrando sua verdadeira face: racista, elitista, xenofóbica e eugenista.
Capítulo 35: prenúncio de uma aliança perversa
Capítulo 44: A MALA! A MALA!
Capítulo 62: “Aliada pelo resto da minha vida”, diz Odete para Fátima. Quase que um prenúncio de um final trágico
Capítulo 72: você começa a torcer para Fátima apanhar.
Capítulo 78: Histórico!
Capítulo 79: Uma sequência foda! Fátima contando TUDO pra Raquel, sem qualquer pudor.
Capítulo 80: Ponto de convergência e cena mais histórica da TV globo.
Capítulo 102: Clipe de Cazuza na TV, numa época que MTV estava se tornando relevante.
Capítulo 111: Mário Sérgio faz um discurso sobre gente extremamente rica. “Empresário honesto eu nunca vi”. União Soviética ainda existia e a critica que Renato faz é total sem sentido, que as pessoas se desestimularam a trabalhar em regimes socialistas.
Capítulo 114: uma das cenas mais pesadas e importantes da novela: Heleninha bebe, sofre tentativa de estupro, apanha do assediador e destrói um bar. Uma cena extensa até. Helena sai numa camisa de força.
Capítulo 117: as músicas internacionais começam a tocar nas cenas. Marco de uma época, as músicas internacionais ditavam que a novela estava se encaminhando para o fim, ou uma segunda fase cronológica.
Capítulos 121 e 122: erro de continuidade
Capítulo 131: mais atrocidades de Odete.
Capítulo 153: “Você se serve do país, mas o país não se serve pra você?!” – Fala do Afonso sobre Marco Aurélio dizer em retirar dinheiro do país.
Capítulo 156: A cena do pileque da Heleninha era pra ser bem séria, mas aí Renata Sorrah bagunçou o cabelo do Humberto… Ficou algo engraçado.
Capítulos 159 e 160: revelação de tudo que Fátima fez.
Capítulo 173: Heleninha aparece bêbada na maternidade. Claramente o áudio é prejudicado e cortam o áudio da cena.
Capítulo 174: a revelação da paternidade do filho de Raquel, que é do Cesar.
Capítulo 176: Raquel decide ficar com a criança, mas sem Fátima.
Capítulo 182: monólogo enorme, que eu tenho que tirar meu chapéu pra Regina Duarte, pois ela segurou muito… Até ela caga no final da cena.
Capítulo 183: “Hey disc jockey, Bota um mambo aí!”
Capítulo 193: exibido no dia 24/12/1988, um sábado. Assassinato de Odete.
Capítulo 204: direção e edição usando e abusando de modernidades, transições entre cenas, como se fossem uma colcha de retalhos. Revelação de quem matou Odete.
Interpretações
Quase todo mundo consegue ter o seu momento de brilho em Vale Tudo.
Beatriz Segall está perfeita em sua atuação.
Nathália Timberg também brilha como irmã boa da vilã.
Mordomo Eugênio, de Sérgio Mamberti é um clássico.
Alguns atores também têm seu destaque em determinados momentos da trama, como Stephan Nercessian e seu Jarbas, que chega a fazer uma ótima dobradinha com Eugênio; Fernanda, de Flávia Monteiro também tem algumas cenas muito boas. Apesar de uma participação bem curta, Tereza Mascarenhas também entrega atuação como Cláudia, a modelo que era enfermeira e ex-namorada de Marco Aurélio.
Daniel Filho está perfeito! Incrível atuação, emocionante mesmo.
O texto de Gilberto Braga
Apesar da novela trazer o nome de Leonor Bassères nos créditos da abertura, a novela é de Gilberto Braga, pois imprime o DNA dele nos textos. Aguinaldo Silva também assina a novela, como colaborador.
E o texto, ou melhor, os textos de Gilberto Braga são muito bons.
Raros, hoje em dia, a novela é recheada de monólogos muito interessantes, extensos e importantes. Ele consegue retratar com maestria o Brasil de 1988: a novela faz duras críticas ao cenário da época, recém saído de uma ditadura, quase que como uma cartase de críticas que estavam “engasgadas” pela opressão. A obra reflete até nas dinâmicas sociais, das diferenças de gerações e possibilidades de abertura de conversas.
Gilberto Braga nos mostra o Brasil: um país sem SUS, velórios e cemitérios privados (dejavú São Paulo?), Lei Sarney de incentivo à cultura (que não era aquelas coisas), a reforma agrária (que até hoje em dia não foi realizada), a desvalorização do jornalismo e jornalistas (assunto também atual). Até mesmo coisas como usar gravadores para registrar declarações, e fazer cópias dessas gravações (João Emanuel Carneiro chora).
Até mesmo assuntos como o aumento da igreja evangélica passa bem rápido, mas passa.
Já naquela época, Gilberto Braga aborda temas como prestígio versus fama, a hipocrisia da mídia social tradicional.
O autor ainda fala muito sobre impostos… Coincidência?!
Há uma celeuma sobre a mídia e o jornalismo. Curioso é que a novela usa o jornal do grupo Globo para “criticar” os “excessos” do jornalismo.
Há uma dualidade primária em Vale Tudo. 8 ou 80: Raquel super honesta e, por vezes, hipócrita; Fátima super ambiciosa, sede de poder, de dinheiro, status. Bom, é novela, né?! Precisa ter essa dinâmica, senão vira outra coisa, algo sem identidade. E a edição faz questão de apontar essa dualidade, alternando entre cenas com Raquel e Fátima, Raquel e Odete. Bonzinhos e malvados. O problema dos malvados é que eles são transparentes e nossa sociedade valoriza demais as pessoas transparentes, mesmo quando elas são extremas.
Moda e tecnologia
Ombreiras era para todos! Homens e mulheres usavam aquelas almofadas nos ombros.
Sungas cavadíssimas para homens, para nosso deleite.
Shorts beira-cu também era algo para todos.
Laser Disk era novidade da época.
Testes de DNA estavam começando a ser feitos, naquela época chamada de ADN.
“Descurtir” era gíria da época.
Curiosidades e anotações
A novela, na globoplay funciona de forma diferente, tanto que os dois primeiros capítulos são condensados em um só, enquanto há uma estranha quebra de ritmo entre os capítulos 121 e 122, sendo que o capítulo 121 termina de uma forma e o 122 começa de outra. O 122 tinha sido dividido em duas partes, mas eles juntaram também, tanto que o capítulo é identificado como “122 A”, porém ele mais parece o “122 B”, pela quebra de sequência, ainda mais porque os personagens falam de cenas que aconteceram.
As cenas de traição de Ivan e Raquel são estranhas… Um cenário preto com uma lanterna laranja ao fundo, como se eles estivessem numa redoma, num mundo diferente, descolados da realidade, porém falando assuntos da própria realidade.
Ivan chega a mencionar que empregadas tinham mais direito… PEC das domésticas só foi promulgada em 2013.
A moeda local era tão desvalorizada que a trama se passa com dólares.
A novela, da metade para o fim, se mostra como veículo de responsabilidade social, mesmo com cenas questionáveis de “pequenos crimes“, até mesmo sobre adoção estrangeira, como uma alternativa a uma vida melhor.
Existe algo interessante sobre a questão do alcoolismo: ao mesmo tempo que mostra cenas de pessoas compartilhando cerveja, não é o que Heleninha bebe quando fica bêbada, até porque a cerveja era patrocinada, assim como o vinho.
A novela teve grande relevância na cultura popular brasileira, onde muito ricos acabam se dando bem, quando não se matam, e pobre só se fode.
A novela acaba antes de terminar, quando, na escolha dos escritores, direção e editores terem escolhidos o tema “quem matou?” como principal mote final, mas já nos primeiros minutos do último capítulo a novela revela quem foi.
Existem passagens de tempo com imagens das pessoas, principalmente com pessoas em situação pobre, populares. De início ela tem como trilha a música “É”, de Gonzaguinha. Depois ela foi substituída por uma música do Rod Stewart, o plagiador de Jorge Ben Jor.
“Onde é que esse país vai parar?” quase que um mantra na novela.
Chega uma hora que as críticas ao país passa um pouco. 1988 era fim do mundo mesmo, aparentemente.
Apesar da novela ter marcado história, ela não foi a que teve a maior audiência da história da emissora, apesar do pico de 81 pontos, no dia do assassinato de Odete.
A gente reclama, hoje, dos elencos repetidos de novelas, mas essa já é uma prática antiga. Parte do elenco de Dancin’ Days (1978) está em Vale Tudo (1988) e também em Tieta (1990).
As cenas de delegacia são caricatas demais.
A falta de cenas no exterior não ajudam em alguns enredos.
Update: Manuela Dias, responsável pelo remake de Vale Tudo, disse, categoricamente que a história original de Gilberto Braga sempre foi de uma protagonista negra. Isso é uma opinião dela. Infelizmente não existe qualquer registro que ele, ou seus co-autores tenham dito isso. 1988 era um momento totalmente diferente de 2025 (e isso não é uma desculpa, mas sim um triste fato da nossa história).
Aliás, um registro histórico interessante: A primeira protagonista negra, numa novela brasileira, foi Yolanda Braga, em 1965, na novela “A Cor da sua Pele”, na extinta TV Tupi. Na TV Globo isso só foi acontecer em 2004, com “Da Cor do Pecado“.
Existem muitos questionamentos se, em 1969, a TV Globo teve sua primeira protagonista negra, a incrível Ruth de Souza, na novela “A Cabana do Pai Tomás“, pois o ator protagonista fez blackface para interpretar o personagem Tomás.
Ideias
Ao longo da novela, eu fiquei imaginando situações e cenas que poderiam acrescentar na história:
Seria uma boa se…
No caso da tentativa de envenenamento, pelo bem da audiência, Raquel poderia usar a informação do gigolô e segurar ele até conseguir todas as provas contra Odete. Inclusive fazendo ele falhar em todas as tentativas da Odete prejudicar a Raquel.
Chega um momento que o alcoolismo de Heleninha vira algo de moralismo… Senti falta de uma alma errante como a Heleninha, que embarcasse nas loucuras com ela, depois partisse e fizesse ela repensar. Tipo chegar ao fundo do poço e ver a escuridão, até que algo faz ela refletir e emergir de volta.
A trama de Heleninha é muito complicada, pois o texto acaba sendo fraco e ninguém fala a verdade para a Odete! Ela é a culpada pelo estado da Heleninha, ela quem quer delegar a responsabilidade dela para outras pessoas, como se elas fossem realmente responsáveis pelo bem estar da Heleninha.
Eu colocaria uma pitada a mais: Maria de Fátima deveria ser a filha de Odete e Afonso o filho de Raquel. Ambos tem quase a mesma idade, e Odete, depois de recusar Heleninha, resolve trocar a filha por um menino.
Trilha Sonora
Além da clássica música de abertura da novela, “Brasil”, cantada por Gal Costa, a novela trouxe muitos hits da época. Destaque para Pense e Dance, do Barão Vermelho, Isto Aqui o Que É, de Caetano Veloso, É, de Gonzaguinha, Faz Parte do Meu Show, de Cazuza, entre outras…


Os temas, tanto nacional, como internacional de Raquel e Ivan eram peculiares. Desde Tá Combinado, de Maria Bethânia:
Então tá combinado, é quase nada
É tudo somente sexo e amizade
Não tem nenhum engano nem mistério
É tudo só brincadeira e verdade
Até Baby Can I Hold, de Tracy Chapman:
Sorry
Is all that you can say
Years gone by and still
Words don’t come easily
Like sorry, like sorry
Músicas quase que de um “não casal”, o que atenua ainda mais a falta de química entre os dois.
Pequenos problemas
A novela, como qualquer outra produção audiovisual não chega a ser perfeita. Aqui, os problemas que mais chamam atenção envolve o áudio: gelo batendo nos copos, microfones distantes dos atores, cenas externas sem microfones… Mas nada que estrague a experiência por completo.
Há ainda alguns poucos questionamentos que ficaram em aberto:
Mais spoilers!
Afinal, Freitas roubou o ouro do Marco Aurélio? Por que Deise foi presa?
Regina Duarte criou a cena de fechar a porta e descer, encostada nela, chorando?
Referências?
Com mais de 50 anos de novela brasileira, é quase impossível não haver comparações de personagens:
Maria da Paz (Dona do Pedaço) estaria fazendo uma referência à Raquel? Bia Falcão (Belíssima) foi uma homenagem à Odete Roitman?
Globo: 60 anos de emissora, 100 anos do conglomerado
Roberto Marinho, criador da globo, que tinha apoiado a ditadura de 1964, nasceu dentro do regime (1965), faz uma novela como Vale Tudo, mas depois interfere nas eleições de 1989. A globo, que, recentemente, assumiu seus erros, mas que em 2016 saiu no bonde golpista (de novo) contra a Dilma, sendo porta-voz de Sérgio Moro e cia. Qual será a próxima do conglomerado?


