Por que brasileiro gosta tanto de vilão?
Recentemente, a TV Brasil, em seu perfil no Tiktok, exibiu um trecho de uma entrevista de Beatriz Segall, para o Ziraldo sobre sua personagem, Odete Roitmann, e a relação do brasileiro com vilões:
A Max estreou sua primeira novela brasileira no dia 27 de janeiro de 2025 e seu último capítulo foi exibido dia 21 de março de 2025. Apesar de se perder em termos como “série”, “novela”, “episódios” e “capítulos”, a obra de Raphael Montes foi vendida, desde o começo, como novela (diferente da Netflix que até hoje não consegue identificar “Pedaço de Mim” (chamando de melodrama – um termo ainda pior, que desrespeita a tradição e cultura brasileira).
A trama conta a história principal de Sofia (Camila Queiroz) e Lola (Camila Pitanga).
Sofia busca vingança após perder a mãe, incriminada por Lola e morta em cadeia a mando da mesma. Lola era prima de Cleo (Vanessa Giácomo), mãe de Sofia. As histórias dessas personagens principais se entrelaçam com a vida da família Argento e a família Paixão, que também são afetadas pela morte de Rebeca Paixão, numa cirurgia feita por Rog (Marcelo Serrado) e Benjamim (Caio Blat).
Vários crimes rondam as vidas de Lola, Benjamin e Rog, que ocorrem ao longo da trama.
Brasil: amor e ódio por vilões
Em Beleza Fatal temos Lola, numa interpretação magistral de Camila Pitanga, o que fez com que muita gente relembrasse de vilões marcantes da história da telenovela brasileira. Raphael Montes até apelou para um trauma na vida de Lola, para que o público pudesse ter empatia, numa espécie de justificativa de seus atos horrendos. Pode até contextualizar, mas não justifica.
Beleza Fatal conseguiu trazer de volta para o público o prazer em amar e odiar vilões. Desde a última grande vilã reconhecida (Carminha, de Adriana Esteves, em Avenida Brasil), o público carecia de novos vilões. E vilões da ficção são muito mais palatáveis do que os vilões da realidade.
Na pandemia, vimos que vilões da vida real não são tão legais de se venerar (até isso tinham tirado da gente).
Alguns fatores contam para que vilões ganhem mais interesse do público do que os mocinhos de tramas: Geralmente mocinhos são muito bons, que chegam a ser tontos. Já vilões são astutos, inteligentes e sagazes, com tiradas que divertem o público, ganhando o carisma que mocinhos não conseguem.
E é o carisma que fez com que Lola fosse venerada nas redes sociais. Assim como aconteceu também com outros vilões ícones da história:
- Carminha, já citada anteriormente;
- Nazaré Tedesco (Renata Sorrah), de Senhora do Destino;
- Sinhozinho Malta (Lima Duarte), de Roque Santeiro;
- Flora (Patrícia Pilar) de A Favorita.
Alguns casos ainda chamam mais atenção, quando vilões conseguem sua redenção, exatamente por sua aclamação. O mais recente vilão que ganhou o público, tendo até o marco histórico do primeiro beijo entre dois homens na TV Globo (sem o boicote da própria emissora), foi Félix, de Amor à Vida.
Mateus Solano conseguiu dar tanto carisma para o personagem que chegou a jogar a sobrinha, recém nascida, no lixo, deixou de ser vilão, sendo amado, até mesmo pelo pai que o rejeitava.
Entre o amor e ódio
Apesar do carisma de Lola, a personagem faz muita coisa ruim durante toda a trama: arma para seus inimigos, mata muitas pessoas que atrapalham seu caminho e chega a torturar. Além de ser amada, a personagem acabou sendo também odiada. E existe um temor do público em odiar amar um personagem.
Historicamente, o público não consegue desassociar o personagem do ator. Existem muitos relatos de atores que chegaram a ser ameaçados pelo público.
Um dos casos mais emblemáticos foi de Regiane Alves, que interpretou a malvada Doris, de Mulheres Apaixonadas, que foi hostilizada por telespectadores.
Amar odiar é aquele meio termo que eu considero mais saudável. Odete Roitmann é um desses casos que telespectadores amaram odiar. Interpretada de forma magnífica por Beatriz Segall, a personagem já entra na trama de Vale Tudo ferindo vários direitos humanos. (tem review da novela inteira aqui, leia que vale muito a pena)
Novela de volta as suas origens
Novelas brasileiras se tornaram uma poderosa ferramenta cultural, influenciando e moldando como o brasileiro se vê e se reconhece nas telas. Mas, nos últimos anos, a TV Globo caiu na tentação da globalização, mesmo tendo feito muitas novelas clássicas que viraram produto de exportação de grande sucesso.
Mais recentemente, a Globo resolveu apostar em formas consolidadas pelo mercado estadunidense, como as séries. O resultado foi o extremo oposto do que eles gostariam, tanto que, agora, eles apelam para remakes de sucessos antigos, para tentar resgatar a identidade novelística brasileira, como se o novo, ou o modelo clássico, ainda que com novas histórias não fosse possível… Até chegar a Max.
Sucesso nos dias atuais
As métricas utilizadas antes não refletem a realidade atual. Hoje, com dispositivos móveis e acesso fácil à internet, poucos são os que realmente param em frente à TV para assistir uma trama. Nessa realidade imposta, Beleza Fatal vem para mudar o cenário, mostrando que é possível ser popular sem ter os mesmos números de antigamente. E Raphael Montes nem cria a roda aqui, pelo contrário, ele aposta forte no mais clichê dos clichês das telenovelas brasileiras, com apenas alguns diferenciais, mesclando o novo com o velho.
Max ainda demonstra que, diferente da TV aberta, a liberdade de contar histórias sem um determinado número de capítulos pré-definidos (geralmente de obras extensas) faz toda a diferença. Enquanto a média de capítulos de uma novela na TV Globo chega por volta dos 100 capítulos, apenas com 40, Beleza Fatal entregou muito, com coesão, quase que sem barrigada, numa trama muito bem escrita.
Existe o risco de Raphael Montes dar continuidade à trama, um erro já cometido por Walcyr Carrasco com sua péssima Verdades Secretas 2.
Review com spoilers!
Caso você ainda não tenha assistido à novela da Max, pode ignorar o que vem a seguir:
A novela é ótima? Sim. Perfeita? Nem tanto.
A trilha sonora é bem fraca, não pelas músicas desconhecidas (em sua maioria), mas por não conversar direito, em vários momentos da novela.
O fato da Sofia ter um romance com seu primo, Gabriel (Enzo Romaní), já é estranho, mas fica ainda pior quando ela se relaciona com o seu irmão de criação, Alec (Breno Ferreira), quando o filho de Elvira (Giovanna Antonelli) e Lino (Augusto Madeira) poderia ser apenas um irmão na friendzone.
A primeira fase da novela é curta, mas muito bem feita. Quando acontece a segunda fase (e aquela peruca horrorosa da Sofia), existe uma semelhança entre as atrizes Camila Queiroz e Vanessa Giácomo.
A primeira vez que se mostra que Átila (Herson Capri) está com câncer, parece que logo ele vai de arrasta, mas aí somos surpreendidos pela terceira fase da novela e ele estava firme e forte, tendo um tórrido relacionamento com Marcelo (Drayson Menezzes), uma boa sacada do autor, ao colocar o personagem gay transfóbico, algo, infelizmente, comum na nossa comunidade. Aliás, este é o melhor trabalho de Herson Capri.
O elenco é muito bom, entrosado e que entrega.
Poderiam ocorrer mais crimes gráficos envolvendo a questão estética.
O medo de ser mais um Todas as Flores, fez com que eu temesse até o último capítulo de Beleza Fatal.
A semana dos capítulos 26-30 parecem monótonos e sem grandes acontecimentos. O que não deixa de ser curioso, pois a trama de Beleza Fatal tem enredos que se aceleram, mas que poderiam ter sido exploradas, tanto dentro da linha do tempo, como em flashbacks, tal qual fazem outras obras como animes e séries. A barrigada é, acima de tudo, uma opção de quem produz.
Eu gostei da mocinha vingativa… Não gostei dela se perdendo no meio do caminho, achei um recurso fácil, preguiçoso, quase que mandando o recado do Seu Madruga: “A Vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena”.
Um discurso que repete, meio que querendo justificar as atrocidades de Lola, de Sofia… Que nunca tiveram nada de mão beijada. Talvez seja uma tentativa de narrativa com moral, numa espécie de nivelamento que não pode ser ultrapassado. Todo o núcleo popular dessa novela reverbera esse discurso. É um saco.
Vivianne (Naruna Costa) tem o pior plot da novela, mas que é compensado pelo seu fim explosivo.
O assassinato do delegado corrupto passou tão batido, ainda que de forma cômica, que eu achei até curioso. (não consegui encontrar o nome do ator)
O arco que mais me surpreendeu, foi o de Gisela (Julia Stockler), pois, desde o início eu achei que ela iria se matar, mas ela sim, teve uma das mais maravilhosas vinganças da novela.
A novela tem seus buracos, mas alguns, especialmente no último capítulo, foram bem feios.
Quem ligou para Lola fugir do hotel que estava foragida?
Afinal, com quem a Ramona (Patrícia Gasppar) estava conversando? Se existia um segredo sobre a fortuna escondida na Itália, por Átila, como Marcelo, Ramona e Ana (Monica Torres), até mesmo a volta da Nara (Georgette Fadel), sem muita explicação também, estavam todos indo para lá?
A coringada final de Lola foi um pouco exagerada. Ao incendiar a Lolaland, eu entendi que ela entendeu que perderia seu império de qualquer forma, então que não fosse de ninguém, mas ficou algo tão qualquer coisa, tão Soraya Montenegro (Itatí Cantoral) querendo matar a Maria do Bairro (Thalía)…
Ficou óbvio que Sofia foi quem matou o Benjamim, para culpar a Lola. No fim, ela foi presa pelo único crime que não cometeu, o que não deixa de ser uma boa canetada do Raphael Montes.
Apesar da novela ter a autoria de Raphael Montes, é imperativo que os colaboradores devem ser citados também, pois, muitas vezes, são eles quem carregam as tramas e podem ser futuros autores de novelas também:
Em seu casamento, Andreia ((Kiara Felippe) menciona uma música que ela disse que sempre ouvia, mas nunca tinha tocado na novela.
Raphael Montes fala (em muitas entrevistas) muito da humanização dos vilões e do lado obscuro dos mocinhos. Eu entendo, porém discordo. Pra mim, precisa existir um limiar que não pode ser ultrapassado, pois a novela tem essa liberdade dicotômica e tá tudo bem. Ainda mais que foi uma trama que se sustentou na briga entre mulheres.
Novela realmente brasileira?
Apesar de todos os louros o ovações, é importante salientar que a novela Beleza Fatal (criada, dirigida e realizada por brasileiros) é de propriedade da Max, de uma empresa estadunidense. A falta de regulamentação afeta demais as próprias pessoas envolvidas na produção, reflexo disso foi a venda da novela para a Band, excluindo, segundo o Caio Blat, os atores nessa venda. Produções brasileiras deveriam pertencer aos brasileiros, ao país.







