Pequenos Monstros

Faustão, em seu saudoso Domingão do Faustão, elogiava uma pessoa talentosa de “monstro sagrado”, mas aqui podemos usar o termo em sua dubiedade que é permitida.

Adolescência e o desabrochar de um talento

Na série da Netflix mais famosa da atualidade, Owen Cooper vive Jamie Miller, acusado de matar uma colega de escola a facadas. Aqui não existe spoiler, pois desde os primeiros minutos da microssérie, tudo acontece como um rolo compressor, que só termina no último momento do último episódio, sendo 4 no total. Com plano sequência de verdade, a história narra trechos de uma tragédia familiar e social.

O menino, de uma família de classe média, nascido e criado numa realidade com internet e redes sociais, é cooptado por discursos e fóruns que exaltam o masculinismo e colocam qualquer menino, jovem e até mesmo adulto, numa posição de fragilidade inexistente.

A famosa história do coitado do privilegiado.

A série é crua e não traz juízo de valor como foco principal, mas sim, um convite à reflexão de como nossa sociedade anda doentia.

Um fato interessante que eu não vejo as pessoas comentarem, é que existe uma dinâmica, dentro do masculinismo, que não abarca só meninos e homens, mas também meninas e mulheres, a partir do momento que, no terceiro e histórico episódio, a psicóloga mostra para o menino prints do Instagram, onde a vítima também praticava bullying com o menino. Então é algo que acomete a todos, mesmo tendo o foco principal, desses masculinistas, sejam meninos e homens. É óbvio que isso não atenua a gravidade do ato do menino, mas contextualiza um problema que é da sociedade em geral.

Nasce uma estrela e o perigo de um talento mal cuidado

Adolescência – Reprodução Netflix

Em todas as cenas que Owen Cooper realiza, nesta série, eu sempre rezava e torcia para que sua saúde mental tivesse sido muito bem trabalhada e protegida. Esta é a primeira obra que Owen trabalha como ator. Com 15 anos (2025), ele interpreta um personagem de 13, mas com uma carga emocional elevadíssima. O terceiro episódio é todo sobre Jamie e a psicóloga. Quase que numa peça de teatro, você assiste uma hora de interpretação quase ininterrupta, que, apesar de ser um plano sequência, acaba saindo e entrando em ambientes distintos.

Público e crítica especializada já consideram Owen o ator revelação de 2025.

O que me fez temer por sua saúde mental e seu futuro, foi saber que ele não é a primeira criança que tem uma acensão meteórica. Exemplo é o que não falta:

Judy Garland era apenas uma menina de 16 anos, quando fez o papel de Dorothy, em “O mágico de Oz“, mas este não tinha sido seu primeiro trabalho na indústria. Começou na dança, depois o teatro, até ser contratada, aos 13, pelos estúdios MGM. Já nova, ela tinha problemas com sua aparência, ainda mais porque era muito “velha” para interpretar uma criança e muito “nova” para interpretar algo mais adulto, inclusive sendo chamada de “pequenina corcunda”. Além disso, sua frenética agenda de trabalhos fez com que ela desenvolvesse vícios em substâncias para deixá-la produtiva, para ela dormir, para ela emagrecer, que perdurou até o seu prematuro fim, aos 47 anos. Além dos abusos registrados, Judy ainda sofreu abuso sexual, pressão para fazer aborto, uma tentativa de suicídio, entre outros crimes que destruíram a vida da grande artista.

Drew Barrymore, hoje com uma carreira consolidada, só conseguiu se reerguer depois de muitos anos. Sucesso em E.T., onde interpretou a Gertie, Drew teve muitos problemas familiares, abusos de substâncias e um afastamento dos holofotes. Somente depois de 15 anos ela voltou a trabalhar em Hollywood. Apesar de não ter realizado nenhum trabalho dramático, quando criança, ela teve muitos problemas.

No Brasil também temos o caso trágico de Fernando Ramos da Silva.

Pixote e a exploração destrutiva

Fernando Ramos da Silva tinha apenas 13 anos quando estrelou o aclamado filme “Pixote – A Lei do Mais Fraco”.

Dirigido por Hector Babenco, o filme retrata a história de Pixote, um menino de rua que é mandado para um reformatório, depois de uma batida policial. Lá ele vê crimes acontecerem entre as crianças, inclusive estupro, até de guardas. Pixote consegue fugir com Chico (Edílson Lino) e Lilica (Jorge Julião), uma transsexual. Já nas ruas, Lilica tem um novo amante, o Dito (Gilberto Moura). Eles chegam a ficar num apartamento de outro amante, Cristal (Tony Tornado), que faz com que esse grupo participe de uma negociação de drogas com uma stripper, no Rio de Janeiro, interpretada pela saudosa Elke Maravilha. A stripper tenta passar a perna nas crianças, acaba matando Chico e sendo morta por Pixote.

Depois do crime e de mais uma fuga, o trio acaba conhecendo Sueli (Marília Pera), que lhes dá abrigo e viram comparsas de furtos de seus clientes. Prostituta, Sueli acaba se interessando por Dito, que deixa Lilica com ciúmes e acaba por deixar o bando ao flagrar Dito e Sueli transando.

Durante os golpes, acontece mais uma tragédia que traz ainda mais drama ao filme.

Pixote – A Lei do Mais Fraco – Reprodução Embrafilme/IMDb

Fernando ainda tentou continuar na carreira, porém ele era semi analfabeto e não teve nenhuma ajuda da indústria. Tirado das favelas do Grande ABC (que inclusive é mostrado antes do filme começar), ele acabou voltando para lá, quando sua carreira de ator não tinha ido para frente. Se envolveu com o tráfico e acabou sendo morto aos 19 anos. Fernando não teve qualquer respaldo familiar e da sociedade, principalmente da indústria que lucrou muito com sua atuação.

Quando não são resguardados o “ser criança” desses atores que se destacam, o fim acaba sendo trágico e, a cada minuto de cada episódio de “Adolescência” eu só pensava, torcia para que a saúde mental deste menino Owen seja cuidada. Este pode ser o único trabalho dele, ou pode ser o primeiro de muitos. O que vai definir seu futuro, será seu entorno, as oportunidades que surgirem.

Dadas as devidas realidades, é difícil não fazer este paralelo entre Fernando e Owen. Torço muito para que Owen não tenha o mesmo fim.

Pequenos Monstros

The Traitors UK e a maestria em contar uma história.

Como a BBC elevou uma franquia e como outras versões erram em não entender a “realidade”.

Reprodução BBC

O primeiro reality show da história é de 1973, mas o hit mesmo só aconteceu nos anos 2000, quando vários países abraçaram o novo conceito de fazer TV. Toda emissora do mundo teve um programa de competição, mas o confinamento, ou até ir para outro lugar, foi o diferencial que separou o que eram os programas comuns dessa nova forma de entretenimento.

Realities de confinamento, de sobrevivência, de música e até culinária. Conforme os anos foram se passando, o conceito reality foi se expandindo e mudando. Hoje temos realities de transformação, de talento (como a arte drag), de negócios e empreendimento, de relacionamentos amorosos, realities que mostram o “dia a dia” de celebridades, até mesmo reality baseado numa série de sucesso… Até que, em 2021, chega uma nova forma de fazer reality show. Apesar de já existirem realities sobre talentos, até então, nenhum que fosse, de fato, temático, de estratégia.

The Traitors

Nascido no país que criou as maiores franquias de reality show (Big Brother – 1999), em 2021 vai ao ar a primeira edição de The Traitors, ou De Verraders, na Holanda. Sucesso de primeira, logo começou a ser vendido para outros países. No Reino Unido, veio pelas mãos da BBC One, nos EUA, pela Peacook, na Austrália pelo Channel 10.

Trailer da primeira temporada de De Verraders (The Traitors)

Mas o que é The Traitors?

Como o nome já sugere, “Os traidores” é sobre blefe, mentira, sobre trair e ganhar o dinheiro no final do jogo. Para os Traidores a tarefa é fácil: “matar” um Fiel por noite, mas é necessário esconder sua real identidade durante o jogo, pra conseguir ganhar.

Já os Fiéis tem a tarefa mais difícil: toda noite, antes do ataque dos Traidores, eles precisam descobrir quem são e expulsá-los do jogo, mas a desconfiança pode ser uma grande inimiga, pois pode acabar vitimando Fiéis. No banquete do dia seguinte, os Fiéis remanescentes são surpreendidos pela próxima vítima, mesmo se descobrirem um dos Traidores.

Além disso, todos os participantes precisam cumprir as tarefas criativas para juntar o maior montante de dinheiro possível (geralmente ilustrado por barras de metal precioso, seja prata ou ouro).

Reprodução BBC/Studio Lambert/Mark Mainz RadioTimes

Diferencial

O que torna o The Traitors mais saboroso é a edição e o roteiro, na forma de contar a história.

(Não cheguei a assistir a primeira versão original, mas recebi feedback que não é muito boa… Acreditei e não fui atrás.)

Conheci a partir da versão UK e me apaixonei já no primeiro episódio. Com a apresentação da maravilhosa Claudia Winkleman, o reality se passa num castelo nas Terras Altas (Escócia), num lindo cenário medieval.

Os participantes chegam, conhecem o local e se conhecem. Todos começam como Fiéis. Tudo lindo, tudo maravilhoso até a primeira reunião para serem escolhidos quem serão os Traidores e quem serão os Fiéis. Todos com os olhos vendados, sentados na mesa onde acontecem os banimentos, somente os Traidores são tocados nos ombros, pela apresentadora.
Aí meu amor, é puro entretenimento.
Só que o programa não é tão simples assim e isso deixa tudo melhor.

Plot twist para todos os lados

Para os telespectadores, saber quem são os traidores e quem são os fiéis não faz muita diferença, até porque, aqui, o telespectador não interfere na dinâmica. Isso por si só já é um plus. Mas, nem sempre a história segue o padrão. Às vezes traidores são revelados nas reuniões e expulsos do jogo; às vezes, os traidores precisam escolher se vão recrutar um dos fiéis, ou se vão continuar o assassinato.
Dependendo da dinâmica, rola até uma vingança.

A versão australiana

Apesar da versão UK ser a mais bem sucedida, em 2023 a Austrália exibiu a sua versão. A primeira temporada é simplesmente maravilhosa… Uma pena que as demais temporadas não seguem o mesmo padrão UK, ou até mesmo a própria versão australiana.
Se você acha que conheceu tudo com a versão UK, você vai se surpreender com todos os personagens e participantes dessa temporada histórica.

Diferente da versão UK, a versão australiana se passa num hotel e os participantes acabam morando no local, durante a temporada.
Mas aqui o saber contar história também faz toda a diferença. Desde o primeiro episódio você conhece participantes fascinantes, escolhas interessantes e muita traição. A apresentação de Rodger Corser também é um ponto muito importante nessa versão.

Mas o que é contar a história?

Hoje, olhando para trás, eu entendo que de reality (ou realidade) não existe nada. São programas que criam situações que não existem na realidade, ou são forçadas num nível que não compete com o cotidiano. Dito isso, o que diferencia um simples programa de um reality show, e um reality show de um reality temático é a edição e como ela é conduzida pelo roteiro.

E, apesar de parecer uma franquia que aparenta simplicidade, The Traitors exige muito de quem o faz. O programa exige um roteiro coeso. Talvez vencedores sejam elencados antes mesmo das gravações começarem e isso não é um problema quando se sabe contar uma história! O entretenimento tá ali, o juízo de valores não precisa ser feito, pois é um reality de estratégia (apesar de alguns participantes passarem um pouco do ponto).

A versão UK se sobressai pois eles conseguem se renovar em suas dinâmicas dentro do conceito básico, a cada nova temporada, e isso é muito importante, pois foge total da monotonia, do cômodo.

Aqui no Brasil, não consigo lembrar de uma edição do BBB que tenha contado, de fato, uma história… E não é uma tarefa fácil, ainda mais quando o programa não possui uma temática. Nesses 24 anos de BBB, o programa estagnou. Na edição 20, trazer “famosos” para a competição foi um diferencial. Na edição 25 até houve uma tentativa de criar uma temática ao trazer duplas para a competição, que chegou a ser chamada de “BBB Laços”, mas o programa ainda não se sustenta, pois só trouxe isso de novidade mesmo. No geral, o BBB não possui uma narrativa boa, o programa não é roteirizado para ser entretenimento, não acontecem surpresas que mudam toda a dinâmica. O programa virou só uma grande galinha dos ovos de ouro.

Em sua volta na tela da TV Globo, No Limite até tentou contar uma história, mas o público não gostou, pela memória afetiva da versão anterior, que focava mais na competição do que na história, no convívio.

O desastre estadunidense

Nos EUA, o excesso de narrativa destrói The Traitors. Contar uma história dentro de um reality show não é para qualquer um. Há quem goste da patifaria do Alan Cumming, do exagero de atuações. O curioso é que a versão estadunidense é realizada no mesmo castelo da versão UK, mas acaba parecendo tudo cenário, plástico, sem vida.

A primeira temporada australiana está no primeiro lugar do meu pódio. Depois vem as temporadas da BBC One. E vai ser difícil bater a maravilha que foi a primeira temporada australiana.

Ainda existem algumas versões em outros países como Canadá, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Hungria, Portugal, Rússia, Espanha… Mas ainda não há informações de uma versão brasileira.

The Traitors estadunidense está disponível na Claro TV+

The Traitors versão Australiana pode ser achada em sites de vídeos e The Traitors UK só na locadora popular.

The Traitors UK e a maestria em contar uma história.